Musicalidade

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Uma das pessoas que mais admiro neste mundo é o Nhô Guépe, José ou simplesmente Seu Zé. Um polacão vivido, sagaz e sentimental.

Desde que me lembro, já conhecia aquele sujeito. Ele ficara amigo de meu pai nos áureos tempos de juventude. Acho até que foi minha mãe quem o apresentou. E aprendi com ele a subir em ameixeiras, o que rendeu-me umas das mais fantásticas fotos que tenho de minha infância.

E sabe que o Nhô Guépe é uma daquelas pessoas carismáticas? Ri quando está feliz, chora quando está triste. Nem que seja escondido.

E você não consegue ficar indiferente com suas traquinagens. Ele é poliglota, fala dialetos longíquos, direto dos neologismos que perfeitamente assimilam-se com algum idioma que já se tenha falado em algum lugar da Terra. Assim mesmo, inventa palavras e dá uma risada gostosa, com cara de malandragem mesmo. Mistura seu polaquês puxado em italiano e com um pouquinho da engasgação alemã.

O homem dá inveja ao professor pardal: sabe consertar rádio velho valvulado. Sabe consertar rádio novo transistorizado. Sabe consertar disc-man, guarda-chuva, televisão, radiola, aspirador, video-cassete, microondas, motor de carro velho e brinquedos.

Mas o mimo de suas peripécias é a fabricação de violinos. São verdadeiras obras de arte!

Esculpe cravilhas, afina a madeira pela batida dos nós dos dedos. Trabalha com paciência em cada peça. Dedica toda sua arte aos instrumentos. E sabe tocar. Lança sonoras valsinhas polonesas, clássicos de cordas. Tudo em um impecável instrumento. Ele vende cada um por um salário mínimo. Foi a forma de sempre acompanhar a inflação e não preocupar a cachóla com variações cambiais, desvaloriações do dolar et al. E o que é UM salário? Unzinho. Já vendeu para freiras, italianos turistas, músicos da sinfônica do Paraná. Decoradores que nunca tirarão um acorde da peça.

Gosto muito dele. Ele sabe o que é ser companheiro. E seus amigos gostam muito dele.

Ah, o Zé é meu avô materno.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>