Mulheres, carros e desamores.

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Definitivamente deixei de ser adolescente quando ainda tinha meus quinze anos de idade. A cidade onde morei era pequena e tranquila. Isso nos dava uma liberdade de ação muito grande. Meus pais eram influentes e eu estudava com alguns filhos de militares e policiais locais, o que imunizava em muito nossas ações.

E uma dessas liberdades era dirigir.

Lembro-me claramente das tardes penosas lavando os automóveis do meu pai e da minha mãe, com direito à cera, polimento e outros mimos, apenas para dar uma ínfima volta na quadra, dirigindo sozinho. Aos treze anos Gianlucca ensinou-me a dirigir. Ele era mais velho, tinha 16 anos e dirigia tranquilamente pelas pacatas ruas locais. Aprendi rápido. E aprendi a guiar automóveis com possantes motores 3.1 litros. Trocas de marchas, arrancadas suaves e giro do motor oscilando perfeitamente. Meu pai sempre deixou eu passear de carro pelas redondezas e minhas andanças iam cada vez mais longe. Lembro-me o dia em que acompanhei meus pais até a concessionária local. Era a compra de um carro alemão, fruto da abertura do comércio exterior nacional. Sedã de luxo, injeção eletrônica e o mais interessante: microchipado com requintes de automóvel esportivo.

Tinha em minhas mãos um carro perfeito, cheio de segredos e traquitanas diversas. Eu passeava de carro todos os dias, e isso virou uma coisa banal e corriqueira para a minha familia. Giancarlo já tinha o próprio carro, Gianlucca usava o carro de minha mãe. Eu compartinhava o do meu pai.

O melhor de tudo era que meu pai trabalhava à algumas quadras de casa. E em um perfeito dia chuvoso, frio e muito cedo, acordei-o para me levar ao colégio. “Ah, filho, pega a chave e vai sozinho.” Não acreditava naquilo! E não pensei duas vezes: lá fui de carro para a aula. Alguns alunos do ensino médio já faziam isso, mas era o pessoal do segundo, terceiro ano. E a minha ida motorizada para a escola virou uma bela rotina: fizesse chuva, fizesse sol, lá ia eu de carro.

Essa mordomia rara e que até hoje não entendo, rendeu-me algumas regalias interessantes: Eu dava carona para quatro amigas, três delas garotas da nossa turma bicicleteira. Note que nenhuma morava perto da minha casa, eu apenas dava carona porque era belas companhias.

É claro que de vez em quando rolava algumas infantilidades: rachas, velocidades mortais e até derrapagens controladas. E hoje percebo que passei por alguns momentos tão idiotas que não sei como não morri. Eram mais de 150 cavalos de potência em minhas mãos. Aceleração estúpida “zero-a-cem” em apenas nove segundos. Duzentos por hora em pouco mais de 25 segundos. Do conforto à ignorância quase que instantaneamente.

Eu sempre dava carona à Patrícia e Priscila, duas irmãs. Patricia estudava comigo e era da turma. Priscila, a irmã mais velha, estudava com Gianlucca, meu irmão do meio, e tinha uma leve queda por ele. “Ei Rudy! Festa la em casa, o que acha de ir com seu irmão? Ele não está muito afim…” Há! Priscila o convidara, mas ele não fez muita questão de comparecer. “Claro Priscila, eu vou e levo ele junto.”

Consegui convencer Gianlucca. Festinha americana clássica: meninos levam refrigerantes (álcool, por supuesto) e as meninas, comidas gerais (bolos e salgados). Cheguei com um refrigerante barato e colorido, Gianlucca com uma garrafa de uísque. Só tinha gente da turma dele, pessoas que eu me dava bem mas que tinham uma filosofia muito liberal. Fiquei perambulando pela festa. “Ei Priscila, onde está a Patrícia?” Patrícia era a única mulher que eu conhecia ali. E ela não estava. Meninos de um lado se embebedando, meninas fofocando do outro. Decidi ir embora da festa quando as luzes baixaram, o som aumentou e Bonnye Tyler lançou o tenebroso e melancólico “Turn Around…”

Pronto, era a deixa. Aquela música me deixaria deprimido o resto da semana. Priscila gostava do meu irmão. Gianlucca era apaixonado por ela. Mas tanto ele quanto ela não sabiam disso! Na hora da música ele estava inacessível. Era uma rodinha de shots de uísque. Pareciam hunos gritando e cantando, alheios ao que estava acontecendo à volta. Alguns casais começaram a dançar. Priscila pegou-me na saída. “Dança essa música comigo?”

É claro que não recusaria. Priscila era bonita, magra, alta e tinha uma voz estonteante. Dançamos ao clássico estilo música-lenta: mulher com os braços em volta do pescoço do homem. Homem com os braços na cintura da mulher. Rostos perigosamente próximos e passo lento um-prá-cá-um-pra-lá. Não deu outra: ela me fuzilou com um olhar estonteante. Não consegui desviar daqueles olhos verdes por um segundo. Nossos corpos encostaram-se, Não sei se por magnetismo ou vontade própria. Senti meus lábios à milímetros dos lábios dela.

E nos beijamos.

Um beijo lento e carregado de paixão e vontade. Acabou Bonnye Tyler, tocou outra música lenta. E outra, e outra. Nos beijamos por quase uma hora! Saímos do ambiente e fomos passear nas redondezas. Problema que o carro não estava mais ali na frente de casa. Surtei, pensei em tudo, menos no óbvio ululante: Gianlucca viu eu e Priscila.

Perguntei para um dos amigos dele, confirmaram que ele saíra muito nervoso e bravo.

Conversei quase a noite inteira com Priscila, ela tinha um sorriso delicioso quando eu contava histórias doidas, surpreendia-se a cada verdade que eu abria ali. Beijamo-nos por algum tempo. Tudo estava deliciosamente estranho, e estranho a tal ponto de Priscila me pedir em namoro naquele momento. Muito rápido, muito eficaz.

Voltei à pé da casa de Priscila, sozinho. Pensei em inúmeras desculpas para Gianlucca. Afinal de contas eu o traíra. Mas não tinha desculpa o que fiz. Acabava de roubar a garota que ele falava em namorar há tempos. Eu estava muito feliz e muito triste. Extremos, novamente. Remorso e paixão me corroíam por dentro.

Cheguei em casa, ele já estava dormindo. Fiquei com receio de acordá-lo para conversar e fui dormir.

Levantei muito cedo, era sábado, santo dia para mais um passeio de bicicleta com meus amigos. Voltei domingo à noite, ele saíra jogar basquete. Encontramo-nos apenas no intervalo de aula de segunda-feira. Confesso que eu estava com medo do que poderia acontecer. Gianlucca pegou-me pelo braço. Estava visivelmente alterado: “Porra cara, você está namorando a minha namorada!” e empurrou-me com as mãos. Não reagi, não respondi nada. Apenas fiz um sinal afirmativo com a cabeça e a sombrancelha esquerda. Ele entendeu. virou-se e foi embora. Priscila estava longe, veio correndo saber o que aconteceu.

Naquela manhã meu relacionamento com Gianlucca morreu. Ele não conversou comigo por longos meses. Namorei Priscila, uma garota mais velha e muito interessante. Ela tinha ideais definidos e uma mente brilhante. conversávamos muito, beijávamos muito. Era um relacionamento ideal e sem problemas.

No final do ano minha sina desgracenta se repetiu: Priscila iria para a capital estudar o terceiro ano, preparar-se para o vestibular. Eu não acreditei naquilo! Minha terceira namorada, meu terceiro namoro terminado de uma forma violenta e exata do mesmo jeito dos outros!

Obviamente que não deu certo o namoro daquele ponto em diante. Priscila dedicou sua vida aos estudos aquele ano. Terminamos o relacionamento de uma maneira fria e sem sentimentos. Por telefone. Cretino e por telefone.

Voltei a conversar com Gianlucca, mas percebi que aquela ferida no coração do meu irmão ainda doía ao me ver.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>