Mimosoideae*

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Chacoalha a memória um pé de ingá. Não desses cujas vagens se vendem às cordas, com dez ou vinte sementes. Daqueles mais raros, amarelos e pequenos, dos meus dias de criança com a primaiada vestida de calção e argila, correndo suas euforias nas pequenas praias do córrego de Areias.

Do cipó do ingazeiro muito se podia fazer, desde cestas, balaios, cordas e balanços. Contavam-se centenas naquele pedaço de córrego. E com eles outros tantos pés. De cagaita, tucum, pequi, goiaba e o mal-cheiroso jenipapo. Sobre as copas os periquitos compartilhavam nossa furupa de menino feito a deles. Gritando sem precisar ser ouvido, correndo sem destino. O mundo era ali. E como era bom um ingá sem coró, doce de estralar a língua.

A nossa infância era assim. Cabia numa cestinha feita da argila do córrego com a alça trançada de cipó do ingazeiro. A fornalha que secava a cerâmica era sempre um toco rodado da última chuva, pousado junto da areia. Além das cestinhas, outras esculturas infantis surgiam com a argila recém tirada: jacarezinhos com olhos de pedra, peixes com escama de malacacheta, tartarugas com cascos de seixo.

Ficavam ali secando enquanto a tropinha subia o rio rumo ao ápice das aventuras: O temido poção. Queria ver Indiana Jones que superasse a bravura da molecada de Otto, Santana, Caetano e Camargo. Todo ano a coisa mudava de figura. Aquela curva de rio onde caiu um velho jatobá era desafiadora! Os maiores passavam por cima do tronco e já pulavam para a pedra que represava o poço, à esquerda de quem vai. Os menores desviavam, à direita, passando por baixo do tronco, e tinham que vencer a areia movediça, a corredeira da pedra-sabão, a prainha de argila e atravessar o raso cheio de folhas no fundo.

Para quem não sabe, aquelas folhas pretas no fundo da água fria escondiam dragões, cobras, aranhas d’água e toda peste-de-sete-cabeças que habita o imaginário das crianças.

Hoje não somos mais os mesmos. Dos que sobramos, a maioria já temos nossos pequenos. E eles não sabem mais fazer esculturas de argila do córrego de Areias. Fazem por moldes de massinha industrializada, sabem falar inglês, fuçar em computador, exigem seus telefones próprios.

Triste realidade é que eles vão saber, na pele, ou aprender em algum livro de escola, a importância que têm as matas ciliares, os cursos de água fresca, as sombras da mata, o húmus das folhas pretas, a farra dos periquitos e sagüis, a prosa lenta e sábia dos mais velhos.

A vida não cabe mais na cestinha. O ingazeiro já não tem a mesma graça. Será que ainda existe o ingazeiro? Será que ainda existe o córrego de Areias?

Esse texto é do meu amigo Natanael C. F. Júnior, relatando uma infância que muita gente invejaria. Um dia ele vai fabricar um blog, vai vendo.

*mimosoideae é a subfamília a que pertence o gênero Ingá.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.