Meu mundo em uma casca de arroz

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Eu assinei o RSS de um cara que escreve textos interessantes no Facebook. De vez em quando faço isso, gosto de novos bons escritores postando ideias variadas na minha timeline.

Quase não tem mais cachorro esbodegado no meu Facebook. Fiz uma limpeza étnica e toda a poluição foi filtrada.

A bola da vez é a política.

Gente que defende partidários com a honra. E limpa o chão com ela.

E que esquecem que esse negócio de votação é obrigatório, mas que não é obrigatório falar em quem vai votar.

Pois então, voltemos ao homúnculo que escreve textos interessantes no Facebook.

Descobri que ele é (ou era) publicitário. Desses peixes gordos do mercado. Gostei do conteúdo dele antes de saber que o desgramado era estrelinha, olha só.

Ele reclamava que 2014 era um ano trágico. Muita gente morrendo. Mais do que o normal. Concordei, balançando a cabeça igual aqueles cachorrinhos de painel de carro.

A minha teoria é que eu estou ficando velho. E velho, infelizmente, começa a perder gente ao redor.

Mas tem coisa errada aí.

Os dias se passam em perspectivas diferentes na minha vida.

E isso não é razão suficiente para o fenômeno.

Então é coincidência infeliz.

E eu não acredito em coincidência, aleatoriedades ou forças cósmicas assopradas.


Mudei para uma casa mais legal. Isso é importante porque me deixa feliz. Agora tenho horizontes longos, uma vila em frente, shard, pepinão e kualalampoor (aquela estátua das olimpíadas de 2012) na linha de visão. Janelas grandes, muito sol (esse negócio de luz aqui é assunto meio sério), um quarto a mais.

Das minhas observações gerais: um vizinho de uma casa mais a frente almoça e janta na mesa do quintal. Ontem começou uma garoa no meio do processo alimentar e, ao invés dele voltar para dentro da casa, resolveu abrir um guarda-sol gigante. Tenho dois corvos que conversam sobre amenidades e clima. Não tenho mais quintal, o que não me deixa mais fazer a manutenção básica da bicicleta. A vizinhança é muito estranha. Mas em compensação a minha rua tem uma feira de frutas e tranqueiras. Melão potiguar à £0.50 a unidade. Goiaba branca egípcia, mandioca jamaicana, pêssego palestino e castanha de caju iraniana. Caju iraniano!? As-salamu alaykum! Formôsssa (o mamão comum), papaya e sirigüela. Banana normal, plantation (a de fritar), cerejas pretas, caviar de salmão.

Domingo tem feira do produtor agrícola: da fazenda para o mercado. Tem sucos de diferentes variedades de maçã, verduras, bichos e música de bandas de produtores agrícolas.


O McDonald’s serve café da manhã. E se você entrar na loja antes das 9h você vai encontrar um monte de mendigos. É uma coisa estranha e eu só descobri observando: eles ficam lá, flanando, sentados, quietos, esperando. Todo mundo que entra compra um café, uns coisos de comer e um cafe ou comida extra. Esse extra vai para um mendigo aleatório ali. Ele ganha a comida, levanta e vai embora. Achei interessante.

E o café do MC é uma bosta.


O mercadinho do lado é turco. Tem comidas diferenciadas. Mas o que me chamou a atenção foi o cheiro de pão que passa pela cozinha da minha casa a cada hora. Sensacional. Lá fui eu procurar esse cheiro e achei uma padaria… turca. Pães deliciosos e gigantescos por £0.63. E então conheci uma comida chamada gözleme, uma espécie de crepe, panqueca. Recheada com queijo e batata. E o queijo é uma espécie de haloumi ou ricota, preciso aprofundar mais meus conhecimentos.


Globalizei os meus horizontes agora. Leste europeu, mediterrâneo e oriente médio.


E para não dizer que eu tenho um coração gélido, uma foto de um Targa que achei na Long Acre (pronuncia: lôôôn eiquer):

Porsche Targa

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.