Mesas

Curtir Aguarde... descurtir
 
0

Na mesa 21, um casal discute ruidosamente. Na mesa 04, um homem azedão, desses que nem sombra tem — tamanho azedume disposto — bebe um café amargo e fuma cigarro sem filtro. Mesa 22: duas mulheres belíssimas beijam-se copiosamente. Tanto tanto que nem a mesa 21, aquela do casal brabento, percebeu. Ah, mesa 37, no outro canto do salão: dois adolescentes, de origem duvidosa, enlouquecem com a mesa 22. O garção era anão e a garçonete, Craudete (assim com r). O bar era um restaurante e o restaurante morreu. A estrutura era a brega-sem-saída: dois vagões da refêsa, com pinos-de-centro embaixo dos peneus. Da placa velha e mal-feita, o chamariz chinfrim: Broa boa, bifão no queijo um real. Abre às vinte e uma, fecha sempre quando dá briga. Ou quando alvorada de alvíssaras alegra o antúrio seco, vai saber.

E na mesa 02, aquele mesmo escritor tongão que ainda acha que vai conseguir inspiração em um barzinho podre que diz-se restaurante, que na verdade é um-dois vagão da refêsa. E nada mais que isso.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>