A meritocracia do acaso

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Eu vivo na meritocracia do acaso. É mais uma teoria infundada que me obriga a viver a vida que não entendo bem, ao certo. Explico-a: meu mundo não era para ser muito complexo e composto. Minha vida tinha uma linha de crescimento seguro bem tranquilo, P.A. levinha, sem solavancos. 250km de raio, no máximo.

confucioO que acontece é que em algum momento fui raqueado (a melhor desculpa do mundo para qualquer argumento inválido) e a maionese desandou. Não sei ao certo qual foi a razão de entrar em uma nau de novos horizontes, conhecer mais gente interessante e construir amizades com pessoas de anéis de ouro vinte-quatro nos dedos. O fato é que, quanto mais eu tentava andar pelas laterais escuras do salão principal de bailes formais, mais o holofote me caçava.

Isso só é bom em dois casos: quando você faz parte da aristocracia bem-servida ou se você pode arcar com um tipo de esbórnia social equivalente.

Não tenho essas duas coisas. E por mais que eu tente fugir desse circulo de Dante, mais a gravidade me suga para o meio. É um mundo bonito e a grama é bem mais verde e saudável. Mas a minha base não tem encaixes sólidos. Vivo como um gitano bêbedo sambarilando pela horda perfumada daqueles que mandam. Ah, é. Esqueci: eles mandam. Acham maneiras. Criam oportunidades e atalhos. Solucionam com um sorriso das canjicas bem-alinhadas e polidas. Prendem e arrebentam. Usam boas maneiras da realeza e bebericam tés em porcelana delicada.

E  eu não acho nada engraçado.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.