Lomo é fotografia?

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Afinal, Lomo é fotografia?
Vi à venda numa butique da Rua Augusta.

Esta pergunta circulou em umas twittadas famosas dias atrás.

Se você pensar no modo técnico do processo fotográfico, é sim. Porque retrata, com o auxílio de uma luz qualquer, um momento. A Lomo tem lente de plástico, espaço pra filme, câmera escura, velocidade fixa e abertura infinita. Isso significa, essencialmente, que você só consegue a mesma qualidade técnica em todas as fotos.

Claro que tem umas Lomos mais modernas, mas não se empolgue muito.

Agora, se você pensar no modo prático do processo fotográfico, não é. Fotografia, como muitos velhos profissionais da era filme velado resmungam, é um processo controlado. Você tem que ter controle sobre o equipamento, velocidade, filme, granulação, abertura focal, foco, profundidade de campo e regras de composição.

E como você consegue tudo isso?

Simples. Com uma câmera que tenha esses recursos. Qualquer pau véio reflex — desde 1946 — consegue fazer isso com sucesso e precisão.

Eu tenho uma câmera reflex antiga com algumas lentes e uns acessórios garimpados ao longo do tempo pela internet. O resultado é totalmente fora do que se espera com uma reflex digital. Não existe como comparar uma com a outra. Mas a questão é que consigo montar fotos impressionantes e o melhor, enquadrar do jeito que eu quero. O resultado é sempre muito próximo do que eu esperava.

E acredito ser isso a fotografia.

Com uma Lomo, você não sabe ao certo o que está clicando. O objeto está bem focado? Se estiver com uns 2 metros de distância, perfeito. E as condições de luz? N para bastante luz e B para pouca luz. Modo Pinhole (sim, ela tem um modo pinhole) para insanidades. Só isso.

Vai lá revelar pra você ver. É uma surpresa atrás da outra.

E surpresas, na fotografia, não são, obrigatoriamente, boas.

Esta foto é um retrato Lomo clássico: controle louco de luz e cor, aberrações cromáticas pela lente plástica e os clássicos cantos escurecidos:

Abaixo eu tenho uma fotografia tirada com uma 50mm 1.4, tudo em modo manual, foco rosqueado e dedado na contra-respiração. Pouca luz, de final de tarde:

A diferença é simples: eu fiz foco no miolo da flor. f/1,4 é fácil de desfocar. 1/125 regulada pelo fotômetro interno analógico e pronto. A imagem saiu como eu imaginava. Com uma lomo eu não sei o que sairia. Talvez tivesse que tirar a foto em B e, com o vento que estava na hora, borrasse tudo.

A diferença de preços é irrisória. Você encontra velharias seventies na internet: Canon AE-1 a partir de R$120, Nikon FM2 por R$200, Pentax K1000 por R$250. Estas câmeras manuais fazem tudo o que você quiser, com um controle fenomenal. Se der sorte, até uma ou outra Rollei 120 aparece fedendo à mofo.

No legado histórico, você escolhe seu sobrenome: Canon, Nikon, Voightlander, Olga, Lomo, Rollei, Minolta. O gosto pessoal é o seu único rumo.

E a dor de cabeça de tentar funcionar uma velharia é indescritível.

E quem disse que a gente não pode lomografar as coisas?

Esta foto abaixo foi tirada com uma reflex normal e tratada com um Action do Photoshop (clique aqui para baixar):

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>