Lembrete para daqui a pouco

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O fel desgraçado que ainda escorre no canto da minha boca serve como um sinal de que nunca me esqueça que o cinema, a fotografia e a música apenas retratam idéias maravilhosas irreais.

A fotografia é um fiel retrato do impossível.

Aquele roteiro melodramático do filme que passou na tarde friorenta de sábado é uma historieta improvável.

O seu chororô musicado num Fender dreadnought é de uma sentimentalidade tão exponencializada que chega a ser inconcebível.

Ontem tentei encaixar as pessoas que passavam por uma rua bacana em frente ao café que frequento e nenhuma delas, em mais de duas horas de observação, poderia fazer parte do meu novo livro. Todas incrivelmente… normais.

Rostinhos previsíveis. Ninguém surpreende ou faz macaquices ou sons estranhos ou mexe com o cachorro da mulher de vestido florido. Faltam-lhe farsas vivenciais e momentos de idiotices plenas. A humanidade anda decepcionante nos últimos tempos. Talvez por isso toda a sétima, oitava (e qualquer-cardinal-subsequente) arte consigam audiência até hoje: são impossibilidades reais.
Mundo, mundo. Sempre na marginalidade do previsível.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>