Josias, o propedeuta amoroso

Curtir Aguarde... descurtir
 
0

Era assim que eu assinava uma coluna de relacionamentos amorosos no jornal O Plausível, da cidade de Itaiacóca, em 1968. O anonimato causado pelo pseudônimo imponente era deveras significativo, uma vez que eu sempre recebia e-mails, telex, mimeografias e cantadas calorentas por cartinhas.

As mulheres me achavam charmoso. Elas exacerbavam o tipico complexo do radialista de voz de barítono galeão. E olha que nunca ninguém descobriu minha real identidade ou viu minha foto. Talvez fosse uma forma de proteger a carência afetiva delas, sei lá.

O bom de tudo isso era que eu, na ingenuidade da leiguisse psicológica, conseguia solidificar (ou destruir por completo) relacionamentos amorosos cheios de dúvidas e precipitações vivenciais. Escrevia opiniões solidárias, citava dicas românticas para ogros pézudos e demonstrava a complexidade do amor em traições desmedidas.

Sim, eu desafiava os apaixonados!

Mostrava que a paixão cegava, que o amor sufocava. Salvo raras situações onde o casalzinho era realmente feito um para o outro, todos os relacionamentos descambavam para a baixaria.

Muita gente escrevia para mim, dizendo que apostara tudo em um amor fatídico, com alguns detalhezinhos que ignoravam e achavam que não implicaria em nada, mas que crescera como um tumor maligno e cancerizava a base real do relacionamento.

Pequeninos detalhes, ínfimas pelotinhas vítreas que de tão pequerruchas e desapercebidas, nem coçavam a ostra. E acabaram por virar pérolas carrancudas.

Aí descobri a medonha síndrome do desespero de gente que tentava moldar a personalidade para uma relação que não daria certo de jeito maneira.

E essa síndrome fez Josias — o propedeuta amoroso — especializar-se em saber se um relacionamento que estava começando teria — ou não – a durabilidade necessária para se tornar amor propriamente dito.

Tudo primoroso e direto. Faca-na-bóta mesmo.

Dia 13 de junho de 1969, segunda-feira, a Junta Comercial de Itaiacóca pressionou o editor-chefe para desmascarar, demitir e escarnecer Josias, um maldito propedeuta que arruinou a venda de presentes, flores e contraceptivos da comarca Itaiacoquiense.

Desde então migrei minha carteira de conhecimentos para este site, unica instituição que aceitou-me de bom grado. Um site mecenas por assim dizer. E sempre que posso, exercito o vai-não-vai dos relacionamentos.

Agora sem o brilhantismo vil de outrora.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.