Homem simples

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De simplório, o homem cafajeste podia rir sempre. Não que a vida lhe fosse felicidade desmedida, isso não era mesmo. A vida dura o golpeava a cada instante, mas ele apresentava a falsa felicidade de não a pensar. Vivia a vida com a liberdade que imaginava. Nada de doutrinas, porque é assim que o homem moderno crê a liberdade. Felicidade cada homem moderno constrói de vicíos, medos e sonhos.

E assim o simplório tinha a vida: para contar a felicidade das chapuletadas constantes e poucos mimos exteriorizados.

Pensar na vida é apenas decompor o imaginário incerto. É a própria vida quem indica mandatórios de um certo rigor de idéias certeiras. Basta apenas um tempo para si. Basta apenas conhecer as suas relações imaginárias de bem e mal. Pecado e perdão. Graça e desgraça. Coisinhas ínfimas na mão do simplório, mas de validade espiritual imensa. É que as coisas são assim, não há como escapar.

E quer saber mesmo? O homem simplório sofre e sofre muito. Ah, se soubesse um pouquinho apenas do que lhe espia. Mas não, finge que o mundo é apenas essas crendices e disparates sociais. E pior: reza a bem-aventurança de que amor é a resposta de um algo lógico e racional.

Ah, homem, não te posso mudar, bem sei. Mas de idéias somos levados, não é mesmo?

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>