Hélio Pellegrino

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Hélio Pellegrino era um cara famoso pela militância errática de esquerda pura e principalmente por ser amigo de infância de Fernando Sabino. Encostou-se na proximidade de Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Nélson Rodrigues. Passou o rodo em Lya Luft.

E escreveu uma definição interessante daquilo que te atormenta:

O demônio é pura força fanática, desarticulada de seu contrapeso erótico. A pura morte é dilaceramento, desagregação da matéria. A morte disjunta, desfaz, atomiza – corrompe o rosto do mundo. Nessa linha, a capacidade do demônio é insuperável. Ele preside, alegremente, à fissão nuclear. Ao demônio é impossível unir o que quer que seja, pois lhe falta bondade. Ele funda o lugar da máxima mentira. A verdade é relação, enredamento, tecido de pertinências que se entretecem. O demônio está condenado, por toda a eternidade, a não ter relação com quem quer que seja. É incuravelmente burro porque é ausência absoluta de amor. Todo ato de bondade se comunica, se distribui, irriga a carnadura do real. Se a vida ainda existe é porque a virtude prevalece, como inteligência ordenadora, contra o desmembramento de tudo.

É preciso contar com a força das coisas simples. A cada manhã presencio o milagre da água que jorra, – prestativa, clara, generosa, modesta, – da torneira. Para que isto aconteça, é preciso que muita gente trabalhe, muitos gestos se somem, muitos músculos se articulem, desde a nascente da água até o metal da torneira de onde ela jorra, para desespero impotente do demônio – incapaz de anular a bondade que a faz jorrar. Deus está ao lado do povo oprimido. O resto, a torneira matinal, com sua cega paciência, se encarregará de lavar.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>