Futuro qualquer

Curtir Aguarde... descurtir
 
0

Os dois meninos sardentos de cabelos polaquinhos de uma etnia lá-de-não-sei-onde eram filhos de pescadores de uma praia outrora desabitada por pândegos aristocratas da barriga cervejenta.

A praia era bela, e isso por si só a condenara. Casas filméricas de ricos turistas a tomaram. O iate clube roubou um náco da faixa de areia e, o que eram bóias de isopor com lona preta vagabunda, agora gabavam-se sinetes florescentes com sensor de presença. Ah, aquelas poucas baleeiras, saveiros e a escuna do Zé Lelé… Deram lugar aos 210, 290, 320.

Enfim, a praínha da comunidade de “Nossa Senhora do Rocio Pesto” virou “Resort Iatch Club Rocco & Summer Village”.

A vida teve a sua sorte-revés
Os dois meninos sardentos de cabelos sarará de uma etnia de-lá-sei-onde vendiam trançados de peixes de folhas de coqueiros amarrados em bambuzinhos. Coisa simples, garantiam patacas poucas e boas para doces na banca do Tino.

Mas o barangandan deles não eram os doces do Tino. Nem peixinhos. O ó era o lambrusco-lusco-fusco. Sabia que os dois montaram uma jangadinha de garrafa pet para visitar lanchas que ancoradas pairavam as noites solitas?

Era batata: escurecia e lá estavam os dois futricando porões, gabinas e cozinhas completas dos barcões chiques de panças importadas.

A incursão era tão inusitada e atrevida que rolava até fornadas de pão de queijo e vitaminas de frutas de fruteira nas noites dos dois serelepes. E não teve um oceânico qualquer que não fôra visitado pelos dois sorrateiros.

E veio o tempo que pula
Aí acabou que os dois cresceram, um virou cozinheiro de bistrô petit-gatô, outro piloteiro de avoadeira para pescadores menos abonados.

Não teve final feliz a estória. Talvez porque era real demais a oportunidade prevista. Talvez porque viver de mascates não enriquecesse ninguém ali. Apenas valeu alimentar-se de passados cada vez maiores e mais distantes. Heróicos, talvez, vai saber o que cada um contará para seus filhotes.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.