Ensaio da vida corriqueira

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(carta situada em um canto qualquer da cabeça de uma pessoa por aí, quase famosa, que posterga a realidade e a inspiração, por puro comodismo existencial. É para você, alter-ego.)

Prezado,

Eu sei que a morosidade faz parte da sua fama fétida. Todo artista tem seu momento de recesso, a fuga do mundo e a clausura no limbo do anonimato, não é?

Tenho apenas medo da sua potência fulminante. Prepotência, talvez. Você é uma pessoa forte e teimosa, tem nos pequenos momentos de ódio a catapulta certa para o vôo-acima.

É sempre assim: uma revanche de querer ter o poder sobre os pés, a razão e o controle.

Como você gosta de controlar! Doma o impraticável, racionaliza a sensação de loucura e intensidade!

Isso não te faz bem.

Não segure esse instinto criativo que sepulta ideias maravilhosas, dia-a-dia. Não reprima a pureza da si. Não perca a oportunidade de te satisfazer, de remontar seus sonhos derrubados por um vendaval de imprevistos sem importância.

Você era um cara que tinha apenas um terno risca de giz que custou muito. Tinha um computador portátil, fazia seus frilas para pagar algumas coisas. Era mochileiro, encrenqueiro, improvisador e bom vivant.

Viajava! Vivia o que muitos apenas sonhavam. O que muitos apenas sonhavam e jamais teriam um décimo da sua coragem para realizar!

Aliás, nem contar seus sonhos, você conta. Você ainda sonha? Não parece. Aquela pessoa que conheci, anos atrás, está se escondendo na propria sombra.

Mas acredito nesse resquício de gente, neste sopro de vida que ainda reluta em se debater na rotina salobre que sua alma se meteu.

Até acho que você ficou adulto de vez! Odeio adultos e você sabe muito bem disso!

Ainda faz brincadeiras?

Faz pessoas sorrirem com suas piadinhas de humor galeão britânico?

Imita cachorro com maestria? Buzina de fuque?

Não parece.

Deus? Ainda têm crença? Pior que perder criatividade é perder fé. E você sabe muito bem que quem alimenta a criatividade é a fé. E que a fé vem da curiosidade quase-infantil-quase-de-gato que circula por sua cachóla.

Se quiser, te ajudo.

Se não quiser, suma de vez. E não olhe pra trás, que te dou estilingada de mamona.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>