Em um ponto qualquer

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Aquele terraço de um prédio passado era infinitamente grande. Edifício majestoso, com um imenso e inútil terraço. Ali cabia, eu, meus amigos e nossas conversas regadas a um bom jazz. Blues outras vezes.

O prédio era quase que uma super-república de estudantes. Nossa missão no mundo naquela época era estudar muito, tomar todas, arrumar mulheres devassassas e principalmente burlar a lei.

E sempre que começava a escurecer, lá estava, contemplando o pôr-do-sol, de cadeira de praia, toda a rapaziada. Que programa! A gente podia sempre contar um com o outro, e isso só acontecia porque havia irmandade na ação. Éramos muito desmedidos, não calculávamos as ações e suas consequências.

E sempre tinha coisa diferente acontecendo. Era época do explosão de vendas de aparelhos telefônicos celulares. Com um papel alumínio, alguns códigos malucos digitados e um fio ligando o telefone ao aparelho de som, podíamos rastrear e escutar conversas telefônicas. E em sua maioria, homens conhecendo mulheres de programas.

Outras vezes, lunetas e voyeurismo para vizinhas incautas saindo do banho.

Ríamos muito, de tudo. E bastava apenas um gesto, um som. O humor, do nada passava por cima da gente, e ríamos como retardados. As estrelas eram mais brilhantes, os aviões gigantes passavam mais perto, ali no 25° andar, o nosso andar, nosso terraço.

Tinha vez que gastávamos as economias com fogos de artifício. E quando levávamos algumas amigas loucas para dançarem a noite inteira? Ficávamos vendo, observando seus movimentos, suas expressões. Problema é que ríamos mais do que flertávamos. E isso atrapalhava em muito.

E o terraço se perdeu, um dia. Um de nós passou em um vestibular em outra cidade. Foi embora. E ali a razão do tempo sobre nossas vidas estava se mostrando. A imortalidade, imoralidade e infinidade do terraço definhava em seus últimos risos.

E não houve uma última vez em que nos encontramos lá em cima. Simplesmente ao mesmo tempo, vivendo cada dia de terraço como se fosse o último, nunca mais apaercemos. E isso não foi combinado. Assim crescemos. A vida colocou responsabilidades, as amizades inconseqüentes dispersaram-se. E toda a risada ficou para trás, toda a cumplicidade, o prazer das coisas ilícitas, a fragilidade da intimidade de uma boa e verdadeira amizade, para trás, uma lembrança.

Não houve despedidas. Cada um rumou para seu destino, cada um arrumou sua namorada, seu tom sério. Um morreu, deixando somente bons momentos. Outro, sumiu para a europa. Ficou aquele terraço vazio. Cheio de histórias, verdades e segredos que ninguém contaria melhor do que aqueles sete desocupados do bloco B.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.