Duas vidas

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Tinha eu a facilidade e o talento congénito de reunir amizades sórdidas. Isso cansou. E nunca mais tive amigos, não que me faltassem esses extraordiários reis e rainhas da adulação babarosa.

É que os parcos padrões de amizade que eu originara aqui fôra mesmo um lapso de meus sonhos e utopias.

E os resquícios disso não são mais amigos. Não os tenho mais.

A minha falha constante e o gozo da voluptuosidade mostra-me algumas vezes a consideração que de tudo serei grato: o que dantes eram decididamente poucos e bons amigos, hoje considero irmãos.

Posso enclausurar-me com essa descrição, mas irmãos é o que são.

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Não veio de graça. A vida que aqui vivi e essas pequeninas esculpturas de detalhes e relacionamentos passageiros caem-me como rotos afrescos memorais.

Foram momentos vis que me fizeram esquecer alguns propósitos interessantes da vida, a perda de algumas direções, o gozo da plenitude de emergir (ou afundar) em emoções descompassadas. Um gozo de não perceber que apenas meus reais desejos indeléveis povoassem sentimentos.

Sonolência desanimada de uma vida nova. Sonolência desanimada de querer viver a espiritualidade de uma bonança superior, não apenas se entregar, assim vagamente à libertinagem implícita naquele meu olhar de cachorro louco.

Não sei ainda se fôra uma soberania enclausurada de viver. Quem sabe? Quem sabe apenas minha alma esbatida em cores amenas de um amor não sentido.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.