As duas bicicletas

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A felicidade é um passado perfeito. Não posso garantir, mas tenho uma desconfiança enorme de que a gente só percebe que um momento foi felicidade plena tempos depois. E a busca pela felicidade é uma jornada muito, mas muito longa.

Enquanto procurava uma foto nos arquivos achei esse farol, que ilustra este texto.

Uma foto em um dia frio de inverno. Foi durante uma parada estratégica para respirar. E foi a única foto que tirei no dia.

Uma parada para respirar durante um passeio de bicicleta. Alugada acho. Aliás, emprestada pelo dono do hotel. Duas bicicletas cheias de ferrugem da maresia. Assim eu e meu pai resolvemos pedalar pela orla do balneário deserto de inverno.

Uma tarde simples. Sem vento, sol fraco das luzes frias.

Foi uma das únicas vezes que eu e meu pai pedalamos juntos. Fazia 10 anos que eu não olhava para uma bicicleta. Pulamos calçadas, andamos em passarelas para pedestres, ruas. Foi um momento único e feliz.

Uma foto de um farol. Reencontrei a felicidade mais uma vez. Ela não é – e nunca será – constante. Na minha vida ou na de qualquer pessoa. A felicidade é um equação composta. Não tem plano simples. Depende de uma quantidade indescritível de fatores únicos. E essa complexidade toda explode ao mesmo tempo na sua cara. Não tem como entender na hora.

São as lembranças boas. São elas a razão da minha busca pela felicidade.

E essa jornada é longa. Muito longa.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.