Domingo de chuva

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Era domingo, pé-de-cachimbo. Chuva mansa, gotinhas leves, espalhadas e inconstantes. Almoço de familia, na casa do patriarca. Só para situar, a casa ficava em uma pacata rua onde acabava em descida um pequenino parque de brinquedos.

A criançada faz bagunça, corre-corre pelos corredores, o avô sorri da alegria de todos. A campainha toca. Alguém vai lá fora ver.

Era um menino, provavelmente da rua de baixo, ou umas duas ruas para lá. Pequenino, estava com um guarda-chuva. Trazia junto de si um cachorro à guia. Ambos estavam visivelmente tristes.

Ele contou, entre um soluço e outro, que aquele cachorro o acompanhara a vida toda. Era seu melhor amigo. Mas estava velho e doente. Seus pais não o querem, não têm como gastar com aquele pobre pestilento. O cachorro estava muito abatido, percebia-se claramente em seus olhos. Estavam indo de casa em casa pedir ajuda para o pequenino animal.

Aquilo cortou o coração de todos na casa. O tio mais velho conhecia um veterinário. A tia balzaca e solteira, encarregou-se de arrecadar dinheiro. O menino agradeceu, iria esperar lá no parquinho do final da rua.

Todos reuniram-se à mesa. Era uma bagunça só. Muito barulho, felicidade. Após a refeição, foram ver a quantas estavam o menino e o cachorro.

O guarda-chuva estava fechado. O pequeno animal, deitado no banco, imóvel. O menino, com as mãos na cara, escondido entre os joelhos recolhidos, em prantos.

O cachorro, provavelmente sem raça, sem credo e sem estirpe alguma, havia morrido. Podia ter sido velhice. Podia ter sido alguma doença. Mas o fato de ter sido melhor amigo daquele franzino moleque que chorava sua perda, simplesmente emocionou aquela rua inteira. Não era só o tio mais velho, não era só a tia balzaquiana. Era cada casa ali, cada morador daquela rua em que ele pediu alguma coisa, que compadecera com aquela tenra situação. Todos almoçaram bem, todos queriam ajudar.

Encontrar aquela criança, naquele banco, naquela situação em um dia de chuva realmente não foi nada fácil para os moradores da pacata rua.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.