Desportistas, esportistas e a rede social

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Sempre fui esportista. A lista é bem interessante: futebol, handebol, volei, tenis, tenis de mesa, beisebol, softball, rugby, lacrosse, escalada em parede artificial, atividades fedorentas de academia, ciclismo e até xadrez. É um hobby que me persegue a vida inteira por dois motivos óbvios: a saúde a a falta de saúde.

O estigma de ter ossos largos, meu amigo.

Pois então fiz uma das maiores cagadas do mundo para quem é um cara-acima-do-peso e que tem ‘metabolismo lento’: mudar para a Inglaterra. O lugar mais desgraçado do mundo em termos de exercícios físicos. Um reinado onde o pessoal prefere morrer do que se exercitar. Um lugar onde as academias são raras, baratas e matam uma chusma de leões por dia para tentar sobreviver. Onde os bombadinhos são estereótipos e as mulheres de coxas grossas não existem na prática.

Aprendi por permeabilidade indutiva que exercício era apenas um meio de cuidar da vida. Não era o social do círculo de amigos da academia que sai para comer uma pizza depois da maratona de spinning de 2h30.

E minha movimentação aeróbia se restringe à isso: um momento cinza repetitivo para evitar atrofiar os elásticos do coração. Tem funcionado bem.

Os esportistas e os atletas que me perseguem

É claro que eu tenho que reclamar de alguma coisa. Ainda mais se é de rede social. Cutucando o vespeiro: cada vez que alguma nova beldade física aparece na mídia eu levo um soco-seco nas vistas: a mulher brasileira está se transformando em um monstrinho de coxas grossas e braços de Popai. Alguma coisa aconteceu na curva livre de aparências e o desvio-padrão do gráfico se transformou em um caroço veiúdo. Atentemos ao futuro, em preocupação conjunta.

Mas a questão prima aqui não cheira à flato de whey. A pedida é a ordem lógica.

Então vamos classificar e rotular?

De um grupo seleto de 291 amostrados (u-hum, meu Face tá <300 — salva de palmas) tenho os seguintes dados:

  • 1,03% – atletas profissionais;
  • 16,12% – desportistas assíduos;
  • 44,67% – níubas (a melhor categoria)

Explodindo essa lista em uma descrição científica isenta de opinião pessoal viciada, temos:

Atletas profissionais – como o título sugere, é o altivo-de-alta-performance que ganha caraminguás para suar o draifite; que exerce o poder sobre a propriedade esportiva e que possui desempenho desumano. Este ecótone relata sucintamente a vida profissional de maneira interessante e sem devaneios ou despropérios capitalistas.

Desportistas assíduos – Mamíferos que desde que prostaram pés no mundo estão nessa de malhar, suar, feder. Mantém uma freqüência absurda/constante de exercícios e, por isso mesmo, quase não postam nada sobre o esporte em questão. Sabem que a curva de evolução e de rotina tende ao equilíbrio e nada mais chega a ser interessante ao ponto de instragraminizar. Geramente são tagados em ações ou grupos. Não usam foto de perfil de torso nu (para homens) ou camiseta com numerais no draifite/viseira brega/top de oncinha-camo (para mulheres).

Níubas – O novato, a carne nova, a banha flácida, a pontada no fígado, a cãibra arregaçada. Do anglicismo – new boy – o níuba chega metendo hosferro. Compra uma S-Works de R$47,900 e já viscocanzeia uma foto cabulosa na rede. Pedala com os ViradosDaNoite na primeira semana, Posta TODOS os tracks do Strava. Lá se vão duas semanas: o cara sumiu da rede. Terceira semana e o camelo tá no mercado livre. Mas o ciclismo-gourmet tende a ser uma nuvem passageira, que com o vento se vai. O meu alvo pessoal é o corredor-do-mamilo-sangrento. Da cara desesperada e do bucinador pulsante no rosto semi-arrocheado. Shorts cavadinho. Ele é o meu algoz. O cara que me faz fraquejar. Tremei de medo, infidel. O cidadão que consegue acordar às 5h32 em um domingo chuvoso de outono. Para correr, impor limites, superar-se a cada ganido.  É amigo, eu te acompanho silenciosamente com a roldaninha do mouse. Tenis novo! — Que cor magnifica essa petrolizada-azul-alaranjada com pentaprismas-fractais furtacores. E custou só R$1,430 na CorraMasNãoMorra? Espero sempre ver seus gráficos do Nike+ Running. Eu sei que você não consegue manter o ritmo nesses 3,81km corridos à 6,33km/h. Que desempenho pífio. Pra quê postar essa vergonha? A fisgada na perna. O nervo estourado. O professor falou que dava… O ciático que te pinica a cada trote. Dois meses afastado. Recomeçando o treino semana que vem galere!

E eu vou continuar aqui deste lado do monitor. Em silêncio. Com a minha flechinha do mouse a te vuduzar.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

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