Desgraceira

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Eram três guris. Um polaquinho e dois sararás. Achavam-se — como qualquer menino de época — invencíveis. Zombeteiros, aporrinhavam os caboclos da vila de baixo, um distrito de 300 gentes.

Perto dali a BR-zero-alguma-coisa passava rente. Tinha rio com poço fundo, ponte de altura boa. E era ali que os três guris ganhavam dinheiro. Pulavam da murada, juntavam as mãos cruzadas no peito e os pés em forma de punção, para estourar a água.

No dia três do mês quatro do ano cinco, o polaquinho pulou meio torto e bateu a cachôpa na água. Sabe que o tonguinho morreu? O pior é que sempre pulavam em formato de gente morrida, lembra? Braços cruzados, zóio bem fechado para não cair a bola pra fora. Ca força que ele caiu, ficou boiando que parecia gente morta.

E era.

Foi a morte que ficou na história da vila de baixo, daquelas que o vô conta pra netaiada e serve de regulador doidológico para amainar os ânimos da criançada sem limites. Sobraram os dois sararás. Foram puxar saco de batata. Perderam a coragem e a invencibilidade.

Ou os cuião, whatever.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.