Desejos

Curtir Aguarde... descurtir
 
0

Desenho circulos com os dedos. Círculos que se cruzam em um vidro embaçado de chuva e que apenas revelam o minguado coração desencontrado. A tarde me é insone e nem de amores em corações embaçados consigo viver. Não, não imagino que exista o amor. Não há de existir nada no amor, quem sabe nem exista paixão, que é, em mim, mais acreditável. Existe aquilo de desejo e química e atratividades insípidas. Amor é conversa de poeta desacreditado.

E poeta desacreditado quis ser.

Das minhas carências a inventei, mulher perfeita para mim. Assim a imaginei, de olhos grandes — para que, de relance, alcance sua alma. Cabelo escuro, que fosse muitos e dessa multidão me esgueirasse para um descanso escondido do mundo. Cílios curvados e longos, para que de piscadas constantes escutasse uma borboleta imaginária batendo asas perto de meu ouvido. Dentes afiados, o que há de mal em mordidas? É tão bom!

E assim assegurei minha perfeição de uma mulher perfeita e impossível.

Continuei. Quem não continuaria! Não tenha nojo de bichos estranhos, mulher perfeita. Não quero careta quando uma aranha cai em mim e eu a pego com as mãos. Coma tampinha de caneta, eu como. Não que seja saudável, mas que não odeie quando faço. Da minha mulher perfeita — e o quanto mais perfeita ficava, mais impossível era existir — imaginei simplicidade. Nada de soberba, nada de indelicadezas. Complexidade atônita que a contraste com a indiferença de futilidades quaisquer. Inteligente ao extremo, por supuesto.

Linhas de pescoço e colo delineadas à compasso. E delinear um colo à compasso é impossível, acredite. Falemos então de corpo. Curvas perfeitas, Nada de sobrar ou faltar, sem deleites. E deste imaginativo a leveza de algumas penugens em pontos estratégicos (penugens, não posso chamar de pêlos aquelas delicadíssimas segmentações capilares). Perfume atrás da orelha. Perfume na linha do queixo, perfume em pescoço delineado à curvas francesas de um compasso. E perfume natural que é impossível explicar. E não quero explicar, ninguém entenderia.

Quer mais, continuo.

Acreditar em Deus, sem fanatismos por favor, e por favor, sem o ceticismo horrível dos ateus desregrados. Ateu é um crente covarde e disso o mundo purula. Viu, mais impossível que isso não tem. Ah, agora as pérolas! Bolo de chocolate besuntado de requeijão cremoso. Sim, minha mulher perfeita teria de gostar da minha culinária chucra. Gato de armazém, que se deixe levar por um afago. Deixe fazer massagem inventada, durma escorada em mim, sim, assim.

Como disse, não que exista o amor, amor seria ter uma mulher com esses predicados de prenda figurada em idéias e ela existir mesmo. Perceba que meus sonhos eram explicitos da impossibilidade real.

Então conheci uma mulher.

Com ela descobri o andar ao sol de segunda-feira em tempo de veranico, correr a borda do morro pequeno, subir e subir por arbustos e árvores “Aqui tem macaco, aqui tem lagartixa”, vegetação explicada de folhas vernizadas para não sucumbirem ao sal marinho. Ah! Então, era praia onde estava eu e a mulher que reunia qualidades inéditas às minhas impossibilidades imaginativas. Subir mais e, sem o fôlego que nos é necessário vez ou outra, arquejar perante uma vastidão de mar azul bravio para assim sentar na pedra qualquer. Ah! mar azul, olha essa mulher para assim ela erguer a cabeça ao vento gentil de uma brisa e os cabelos dançarem a valsinha que até hoje não sai da minha cabeça.

Não, não que uma valsa tocou, aí eu seria doidivanas assumido. Apenas cantarolei dentro de minhas idéias de mulher impossível o balangar daqueles cabelos de leve ondulação dançante.

Esvoaçante.

E do céu esperar as nuvens de lá para cá, sem rumo e horas perdidas no que um dia de segunda-feira qualquer o mundo a sibilar rodeios de palavras tortas. Voltar, afinal, era apenas bivaque furtivo e de mãos dadas saltitar de emoções incontidas.

Ah, é teimoso o narrador, impossível ela, não era o que estávamos proseando?

Embarcar, e era uma ilha, esqueci de contar. Encontrar a estrada da volta e, ao som da música deliciosa que adoro e ela canta porque gosta, encontrar finalmente na desordem das minhas idéias o que é, de súbito, uma forma de amor.

Uma forma de amor perfeito.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>