A cura gay

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Desde pequeno a sociedade criou freios e postulou regras em minha vida. Fiz judô, apanhei. Mudei o foco para o ciclismo, esse vingou. Pulos de BMX e milhares de esfolados. Bom garoto eu fui.

Aí começou um problema moral: não sei ao certo qual o motivo, mas o povo da turma da rua 28 resolveu entrar em um grupo folclórico. Não dei muita pelota porque basicamente era dança. E era um grupo ‘português’. Eu não gostava de dança e não gostava de bacalhau.

Mas a professora. Ah, a professora… Amor platônico instantâneo. Virei gajo na hora.

E é claro, virei gay. Minha rede social e de amizades não perdoou o Ney Matogrosso versão bigodão que dançava Roberto Leal.

Eu era escoteiro. E escoteiro depois dos 15 anos de idade só fica no escotismo porque 1) tem uma rede verdadeiras de amigos e/ou 2) as escoteiras. Eu estava lá pelos dois motivos. E é claro, YMCA de uniforme. Aliás eu achava uma injustiça: eu matava galinha na base da bandeirolada e arrancava pele de coelho para comer o desgraçado semi-cru. Tinha que ser um gay muito macho para isso.

Eu joguei basquete, esporte de macho. Volei, esporte em que me tornei gay pela quinta vez. Não se preocupe que eu estou aqui contando quantas vezes já fui gay.

Velho, essa vida de gay não era fácil. Eu tinha que me dividir entre o bullying — porque era da turma dos caras altos e gordos e fortes que ou apanhavam ou batiam, não tinha a regalia dos medianos normais — e a vida mais calma da metrossexualidade que não era metrossexualidade ainda porque na minha infância não existia isso.

Ai veio o gosto musical duvidoso: gostava de uns discos sensacionais de rock pesado, macho alfa nervoso. Mas virei gay quando comecei a gostar de uns riffs do Queen. Pô, Freddy Mercury gayzão e eu lá, achando ele, Bowie, Rolling Stones, Aerosmith, umas bandas legais. Isso era gay nível rosa-choque. Música clássica era um salvo conduto meio enrustido: passava nas vistas grossas da gangue dos motoqueiros demoníacos.

Comecei a gostar de poesia. Gay pela sétima vez na vida. Escrevi poesias quando estava na carraspana do amor não-correspondido e esmigalhado por uma linda garota dos olhos amendoados. Ô, que ali o amargor da vida passou lambendo rente a botinha da Xuxa.

Não jogava futebol na firma. Gay. Não bebia até cair porque sobrava uma raspa de consciência para voltar do churrasco ainda em condições de não dormir no volante. Gayzão do refri.

Mas na hora do copo de whisky virado para ver quem caía primeiro eu era o pedreiro mão-de-marreta.

E assim fui gay por toda a minha juventude. Arranjei uma namorada, larguei de ser gay na hora.

Gostava do gato dela. Aliás compramos um gato juntos. O quê? Gato? Gay gosta de gatos! Elaiá, gay assim virei.

Casei, E quando se casa, automaticamente o certificado de heterossexualidade pousa em sua mesa.

Gay desvirei.

A fotografia foi outro dilema. Andar no mundo da moda é complicado. Procurar modelos, filtrar o cérebro para apenas olhar as curvas de carne como espaço-luz-e-sombra e driblar os béque em vernisságe (desviar dos estilistas afetados) era uma atividade tensa. Bem gay. E o primeiro ensaio com homem? Não sei, sou preconceituoso e nunca tirei foto masculina.

Eu cortava o cabelo em uma barbearia. E tinha uma mulher lá, que dava de 10 a 0 nos barbeiros. Ela era a única criatura que atorava meus pelos da orelha, nariz e os pelos toscos da sombrancelha-ravengar. Era semi-gay cortar o cabelo com ela. Mas ela era a unica pessoa que não destruía minha juba com pézinho-de-milico-duas-polegadas-acima-da-orelha. Ela era cabeleireira. Não era barbeira. A dicotomia era grande: ser macho e deixar um homem encostar em você ou ser um gay com uma mulher pegando na sua gadeia?

Andei no colegiado das artes plásticas. Artista é maconheiro ou viado. E quando assumi o meu lado profissional criativo? Assinar como designer. Você não imagina o quanto é gay ser um designer! Não dá pra esconder: webDESIGNER, visualDESIGNER… tudo é sensível demais para a virilidade bruta.

Ai resolvi morar em Londres.

Londres é a cidade que só tem brasileiro gay. E eu não sabia.

— Foi para Londres para assumir né, viadão!

E no meu trabalho eu fui o cara que teve que cuidar da identidade visual do quê?

…Pride.


A sociedade brasileira é uma sociedade muito fechada. A hipocrisia é abrasiva. Fui gay 21 vezes contra a minha vontade. Aliás eu não queria ser gay, isso que foi a minha sina. E por isso mesmo eu sou contra a homofobia. Aliás, eu sou daqueles gays emputecidos que sobem nas tamancas. E se um dia eu achar alguém investindo homofobicamente contra um gay, pode ter certeza que na minha delicadeza toda (e se eu não for apanhar muito feio) eu vou comer o coração desse cara na ponta da faca. E arrancar um olho dele para mascar na sobremesa.

Eu gosto das cicatrizes nas minhas mãos. E de facas. E de jipes e de ser bruto e de poder levantar um carro com as mãos. Mas isso é obrigação social. Aliás homem não pode gostar das coisas, rege a lei.

Mas isso não me rotula um macho-jurubeba. Nem garante meu ingresso na escola de pedreiro comedor de tijolo. Aliás, coloca aí na lista: gay pela vigésima-segunda vez porque passo creme na mão. Minha mulher me obriga a ter cotovelos que não se assemelhem aos de um crocodilo egípcio do delta do Nilo. E comecei a lavar o cabelo com shampoo. Não uso mais sabonete para tudo.

A vida é complicada para a gente, amigo.

Então se você é o cara que classifica música pelo gênero do vocal, é a favor do ‘orgulho hétero’, cultua o político homofóbico, pastor machista e lambe as botas da TFP saiba que a sua amizade está contaminada pela minha colorida vida desgraçada.

E assim você, amigo de gay, gay é.

Gayzão.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>