Cuidado ao criar alter-egos

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Etelvino criou um alter-ego louco. O personagem é metade do que já foi — seja lá o que tenha sido — e que, no final das contas, não era muita coisa. O novo-alter se intitula franzino e se projeta como um homúnculo, com um coração do tamanho de uma semente de pau-mulato e dois rins de feijão carioquinha. Esse alter-homenzinho veste um terno Allain Brenauldt todo abrancalhado e com um vistoso lenço vermelho no bolso. Gravata de um grená de flandres e ornado de flores-de-liz em fio de penteado dissonante. O personagem-ego atribui sua miséria e desgraça existencial ao estranho fato de ter nascido num dia primo de um mês ímpar em um longíquo ano bissexto secular.

O avatar tem umas duas ou três músicas que repete obsessivamente na memória, e mesmo assim, só alguns trechos. Ele também tem pensamentos paranóides mas não os assume nem fodendo. Está na fina linha entre F:2.8 e F:22. O personagem-aquém anda se misturando com gente má. E Etelvino nem se dá conta.

Esse alter-dominante acorda pela manhã já pensando na noite, em duas hipotéticas verves: um, na hora em que vai voltar pra casa e dormir ou, dois, nas vagabundas do bar, que insistem em rejeitar suas propostas de sexo porco.

A infelicidade tragicômica é que Etelvino pensa que sabe o que está acontecendo, ou melhor, tem certeza.

E todos os outros-egos alter-rejeitados outrora se dão conta de uma infeliz coincidência: a cada alter-criado, um perfeito-ego mais forte e preciso domina o oco Etelvino.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

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