Crônica Urbana: O cão, o tijolo e a árvore.

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O Cão e a árvore.

Esse cachorro da foto é uma figura: um boxer, caramelo, muito fiel.

Ele mora em um terreno quase baldio, perto da minha casa. Na verdade ele é o cão de guarda do terreno. Ele fica o dia inteiro nessa mesma posição: em pé, parado, olhando o nada. O dono (que não mora ali) aparece dia sim, dia não, para alimentá-lo e ver se a água está pingando direito no pequeno pote logo abaixo da torneira.

O cão tem apenas uma árvore, uma pedra e um cercado de tijolos como amigos.

Não tem gramado, apenas esse areião. Não tem casinha, nem abrigo.

E ele fica assim, o dia inteiro. Olhando para o infinito.

Vez ou outra uiva durante a noite. Nada que um assovio não o faça parar de uivar e procurar o autor.

A maior prova de amabilidade desse cachorro é quando chega seu algoz com alimento: ele pula de alegria, lambe-o e corre em volta do figura.

É o píncaro de alegria diária de sua prisão perpétua.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.