Contos do ICQ

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Dia desses avisaram: aquele cara que você doou sangue, morreu. “Doei duas vezes!” pensei com meus borbotões. Eu tinha um pinguinho de responsabilidade sobre ele. Um pouco de nada, mas ao mesmo tempo uma escusa de tudo.

ICQ véio de guerra

Tudo começou quando apareceu uma mulher desconhecida no ICQ, ainda no século passado. (Lembra que os desconhecidos eram apenas um número milionário, que apareciam piscando na mini-tela do icq? Pois então.) Ela era brasileira mas morava no Japão com o marido.

Aqui eram duas da tarde, lá duas da madrugada de amanhã.

Ela se apresentou, conversamos bastante sobre muitas coisas. Ela procurava um velho amigo que, segundo ela, morava na mesma cidade que eu. Ela me adicionou por um refinamento de pesquisas por cidades que o próprio programa permitia acessar. Ajudei-a: achei o nome do rapaz na lista telefônica impressa e passei para ela.

No outro dia ela apareceu no mesmo horário, dia aqui noite acolá. Feliz da vida, tinha conversado com um cara que havia dois ou três anos perdido contato.

Ela mostrou-me fotos do Japão, contou-me aventuras e desaventuras, falou com empolgação de quando conseguiu comprar uma picape lá na terra do sol. Ela era muito inteligente. Rápida, culta e encantadora.

Lobo em pele de cordeiro

Contou-me o porquê de reavivar a amizade antiga: eram amantes virtuais. Amantes virtuais das finadas redes BBS, o que os tornariam os primeiros amantes virtuais de que se tem notícia.

A cada dia que se passava, mais eu descobria segredos dela. Aquela janelinha do icq operava um desbunde de verdades-vivenciais que até eu me assustava. ela relatava desejos, falava das conversas com o rapaz da minha cidade, o descaso do marido, os yenes gastos em cartões para celulares 3g que eu nem tinha ideia do que era.

Uma mulher dinâmica demais. Passional, doidinha.

Problema que eu era gentil demais com ela na internet. Ela acabou se apaixonando por mim, o que me assustou de um jeito que eu parecia ter visto um esprito. Morava com o marido no Japão, reatara a comunicação com o amante virtual que ela sequer tinha visto uma foto dele (e vice-versa) e apaixonada por mim.

Ela contou-me que o carinha da minha cidade estava desempregado. Ele tinha conhecimentos específicos justamente da nova área que a empresa que eu trabalhava precisava.

Então uam sucessão de fatos doidos aconteceram: Consegui empregar ele em um tempo recorde de 3 dias. Ele me conheceu, eu o conheci. Ele era muito aquém daquele herói grego que ela me descrevia. (E ela descrevia sem sequer saber se ele era loiro ou moreno) Ele passou uma ficha minha, sei lá porquê, muito além do que eu era. Isso fez com que a doidinha achasse que eu era um gigante de proporções heróicas e matador de dragões formidável.

Aí ela mudou um pouco o foco. Ligava para mim. lá do outro lado do mundo. Ele ficou de lado, sem entender nada.

Ela falava de separar-se do marido e regressar para o Brasil. Queria porque queria trazer a picape nova em um conteiner. Queria me conhecer, queria vir para minha cidade, passar uns dias na minha casa, casar comigo.

Nesse ínterim todo, conheceu um rapaz árabe, aqui no Brasil também, via ICQ. Ela, na verdade procurava uma prima na internet.

Três dias depois veio a confissão: arrasada, apaixonara-se pelo árabe.

E você não imagina o quanto isso aliviou minha cabeça. E a dela também. A gente parou de conversar por uns tempos, até que recebo um bombástico email com um convite de casamento: Ela separou-se do marido no Japão, juntou as escovas de dentes com o árabe, engravidou, desmanchou o caso-amante com o cara aqui da empresa, comprou um apartamento no Itaim-bibi e planejava estudar informática. Ou psicologia.

Sobraram eu, o ex-marido e o carinha. Eu levei um bom tempo para mensurar o grau de loucura descompassada e multi-tarefa da doidinha.

O marido dela ficou lá pelo Japão mesmo.

O carinha? Conquistou o emprego na empresa. Ele não tinha família, pouquíssimos amigos. Reavivou um mundaréu de conceitos e sempre achou que eu o colocara na empresa. Ele confessou-me uma vez que o caso com a doidinha era uma coisa que ele não sabia como tinha acontecido, terminado, acontecido e terminado de novo. Sabia pouquíssimo da mulher, para ser sincero. Acreditava piamente que ela masturbava-se nas tele-conversas.

Tempos atrás ele adoeceu, fui lá doar sangue para ele. Duas vezes. Eram dessas doenças estranhas que pegam um ou outro de vez em quando. Viveu uma sucessão de fatos irreais e talvez nem tenha percebido.

Faleceu sem nunca ter visto uma foto da amante.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

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