Contar estrelas

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O menino morava em uma casa afastada da cidade. E como toda vida simples daquele tempo, ninguém na sua casa comprava lâmpada de mais de 40 velas. Aquela casinha ficava com uma iluminação murcha, engolida pelo silêncio. Perfeita para ele.

Já conhecia bem ciências, tinha até livro de astronomia. Adorava ver estrelas. Toda noite pesquisava no almanaque o nome de uma constelação. É claro que era preciso ter muita imaginação para descobrir, no meio de todos aqueles astros, quem era quem. E ele achava, apesar do livro americano ter somente o hemisfério norte em suas páginas.

Seu ritual era prático: contava calmamente as estrelas, esquadrinhando em imaginação lotes de astros para facilitar. Outras vezes apenas olhava para a lua, e imaginava o dia em que poderia passear por aqueles terrenos com uma luneta.

Seu sonho era ter uma luneta.

Sua contagem diária era de seis mil e poucas estrelas com lua cheia, às vezes sete mil em dia de lua nova.

Uma noite ele atrasou-se para jantar. A sua mãe, impaciente foi chamá-lo. Escutou ele falar um pouco as balelas de sempre sobre corpos celestes. Apontou convicto para um punhado de estrelas e disse que era o cruzeiro do sul. Sua mãe deu um tapa ardido em sua mão, disse que apontar para estrelas fazia brotar berrugas nos dedos.

Aquilo marcou o menino para sempre. Tacou fogo em seu livro de astronomia. Ficou com ódio daquelas estrelas traidoras, das estrelas que fizeram nascer uma pequenina verruga em seu dedo. Agora entendera como aquela protuberância aparecera em sua mão. Ódio da lua, dos cometas, da noite. Ódio da Prima Estela. Raiva dos brinquedos de mesmo nome.

Tempo passou, enriqueceu, esqueceu a raiva. Até fez poesias para estrelas e namoradas:

Contando imagens
olho para o céu,
desenho nas estrelas
contorno expressões
aponto e aponto.
pronto, mais uma verruga no dedo.

Comprou a luneta mais avançada. Tinha gps, rastreador automático de estrelas e planetas. Magnitude óptica perfeita.

Mas o belíssimo encanto de sua infância fôra extirpado na micro-cirurgia dermatológica, tempos atrás, quando deu adeus à verruga inconveniente.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>