Confinante

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Ele detestava a vizinhança; sabia que o escarneciam, que o imitavam, que lhe chamavam o contador de sonhos! — Pois também dele não haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade!

Vinham de carrinho! Boa!

Tudo o que visse ou que lhe cheirasse havia de ficar guardadinho, lá dentro. — Para uma ocasião! — pensava com humor, sacudindo o mouse velho e encardido. Mas também os amava. Detestava e amava, amor e ódio, vida e morte. Virtualidades e realidades difusas, ali, naquela página estranha e maldita que viciara muita gente incauta.

Chamavam-lhe auspicioso — mas era celerado mesmo.

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Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>