Como era e como ficou

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Existiam dois velhos simpáticos na minha cabeça. Um era senil e realista, cheio de manias simplórias e vícios bestiais. Coisas simples, como tomar banho de chinelos de dedos para não levar choque ou cobrir espelhos para não chamar raio em dia de tempestade.

O outro velho era engraçado. Mergulhado em mentiras e desatinos, sentia-se muito bem e à vontade para contar lorótas mirabolantes. Gostava de relatar histórias e feitos que vivera, com realismo de detalhes perfeito. Mesmo não as tendo vividas. Todos gostavam dele. E no fundo, sabiam que era apenas um pobre e doente velho contador de histórias. E que já não conhecia mais o passado vivido.

Dia desses o velho senil e realista morreu. Ninguém deu muita bola para a coisa. Ele tinha poucos amigos e nenhuma família. Era ele quem administrava as peculiaridades de comprometimentos e constâncias agendadas.

Hoje cedo, o velho mentiroso engraçado morreu. Foi um choque, ninguém esperava. Na verdade ele já estava velho, todos esperavam, mas não queriam. E o querer era como um escudo onde a camuflagem da fragilidade da vida se mantinha intacta e sem vínculos com a realidade.

Enterro simples, com cruzinha de madeira. E mais nada.

Agora sobram duas cadeiras vazias.

E no final das contas, esses dois velhos tocavam este blog. Um tinha os culhões de mentir descaradamente. Outro, doutrinava a constância verbal nos escritos. E pagava a hospedagem. Entendeu como ficou tudo? Morreu o realista, o blog perdeu a periodicidade. Morreu o mentiroso, o blog deixou de ser mágico e sensacional.

Restaram-me dois seres, ambos corpulentos, rejeitados outrora para a função, um de cara angulada e dentes separados. Outro, um sujeito que gosta de girar uma moeda pelos dedos.

Um, alcoviteiro; outro, copidesque.

O alcoviteiro — quem diria! — mora na alcova de um velho lupanar de idéias rôtas. Um fodido sem futuro. Mas cheio de galanteio. Algoz e viral.

O copidesque é um sonhador. E, por sonhar tanto, esqueceu-se da realidade insensata.

Dois trôpegos tortos e imbecis. Gentalha de uma sociedade cheirosa à lavanda. Sobrevivem de imagens onde azulejos são encardidos e verdes, canos rangem as paredes e cachorros lambem os sacos. Comandam macacos. Redigem insones e atordoados. Ilustram figuretas vencidas.

Escritores de blogues, agora, como queira.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>