Como é navegar em um navio no rio Tâmisa

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Das muitas curiosidades e lembranças que considero vivas na minha memória, posso citar 3 que são imbatíveis: o mar e seus acessórios; a evolução exponencial da tecnologia e Jacques Cousteau, o francês exótico, nos programas de televisão.

O mar sempre me foi distante. Sou um cara do interior e nunca me tornei praieiro. A tecnologia é o combustível mais complexo da minha curiosidade diária. E Jacques-Yves Cousteau, a bordo do Calypso, carregando submarinos, aqualungs e um helicóptero Hughes era minha meta de vida adulta de sucesso.

É claro que a o curso certeiro do destino não tem previsão boa para nada e segui uns caminhos absurdos que derivaram muito do plano traçado. E por mais insensatos que esses caminhos foram, eles me entregaram na prancha de acesso do THV Galatea, um navio de serviço da Trinity House.

THV Galatea em Harwich

A Trinity House, para quem não conhece, é uma das mais antigas companhias marítimas modernas. Desde 1514, apoiada por Henrique VIII. Eles inventaram os faróis. Eles inventaram as bóias de sinalização de barcos. Criaram regras e padrões. E ostentavam uma razão social bem complexa: The Master, Wardens, and Assistants of the Guild, Fraternity, or Brotherhood of the most glorious and undivided Trinity, and of St. Clement in the Parish of Deptford-Strond in the County of Kent.

Eu não tinha a menor ideia do que esperar de uma viagem rápida no Galatea. O roteiro era simples: zarpar do HMS Belfast, onde o barco estava ancorado, e seguir o estuário do Tâmisa pelo Mar do Norte e de lá até Harwich, o porto de destino.

Um navio de serviço é muito diferente de um cruzeiro ou de um barco de passeio. Tudo é meio independente e segue uma rotina própria. A ponte de comando é gigante, a sala de máquinas tem uma complexidade espontânea. A tripulação é enxuta e dinâmica.

A viagem foi adiada algumas vezes no dia, principalmente para se adequar à tábua de maré do Tâmisa (que eu descobri nos primeiros dias de vida em Londres que não podia confiar na orientação da cidade pela direção das águas, mas isso é assunto para outro dia). Jantar às 5 em ponto, na mesa do capitão. E a notícia de que sairíamos às 8.30pm.

Um dos pontos principais da viagem era, sem dúvidas, a manobra de um navio grande em um rio estreito e raso como o Tâmisa. Ver a Tower Bridge abrir, as pessoas admirando o navio das margens, passar entre as grandes colunas, lentamente. Londres à noite, vista do rio, é uma cidade calma e brilhante. Tudo segue no ritmo da navegação. A partir do momento em que a cidade se afastava, as luzes se acalmavam, o barulho se transformava em silêncio.

Parte da tripulação se recolheu. Na ponte, apenas as luzes dos painéis e um ou outro diálogo no rádio. Um aprendiz tomava dicas e truques de navegação fluvial com o oficial-chefe.

O dia sumiu na imensidão escura do horizonte. Sem condições de vídeo ou fotos, noite nublada sem estrelas. Era hora de se recolher. Assim a viagem seguiu um rumo tranquilo, silencioso pelo estuário do Tâmisa, que se abria lentamente ao Mar do Norte.

A viagem seguiu pela manhã em um dia calmo, de marolas quietas e rota direta ao porto de Harwich, divisando Felixstowe, um porto grande, vizinho, de cargas.

Desembarcar foi difícil. Não o ato de desembarque (este foi engraçado porque era uma escada que estava na horizontal) mas o fato de abrir mão de um navio envolvente, de tripulação profissional e de educação impecável. Entendi, finalmente a sensação do porto seguro, a falta do balanço do mar em terra firme.

Jacques Cousteau tinha razão:

The sea, once it casts its spell, holds one in its net of wonder forever.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.