Cidade grande

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Levou bem umas duas ou três semanas para que eu desse um bom dia para aquela mulher. E mais uns dias para que finalmente sentássemos juntos na mesma mesinha do pequeno café que ficava na entrada do prédio onde trabalhávamos. Conversamos sobre assuntos dispersos. Ela era mais velha. Contava histórias de sua infância no interior, das traquinagens que aprontara quando criança.

E aquelas idas matinais ao café estavam reamente alegrando minha labuta diária. Toda manhã conversávamos sobre alguma coisa do passado. Ríamos juntos, quando lhe contava dos desastrosos desafetos amorosos que minha adolescência me causou. Acabamos nos conhecendo de uma maneira perigosa e interessante: pelo passado. Não sabia o que aquela mulher era. Não sabia com o que trabalhava, se tinha família. Apenas desvendava aos poucos — assim ela também — o que se passou e o que estaria por vir.

Era um jogo interessante. O passado já estava acabando. Em suas histórias, ela já estava formada e construindo carreira. Eu, ainda terminava o colegial.

E o não tão distante passado acabara por se tornar mais sério. Não ríamos mais das histórias. Eram fatos que deixavam a gente a pensar e refletir.

Ela contou-me de quando conhecera seu marido, como teve uma filha. Eu contei como consegui um emprego em uma grande agência, dos países que visitei, das alegrias e tristezas com minhas namoradas — que ficaram no passado.

Mas houve uma manhã de segunda, chuvosa e fria, em que ela chorou. Seu pai havia falecido na sexta. E foi neste dia em que nos abraçamos. Pela primeira vez. O passado já acabara, já conhecia aquela mulher de uma maneira diferente e ideal. A conhecia no presente. Um abraço longo, fraterno, no manifesto do afeto que de nos completava.

Seguiram outros abraços. Quando comprei meu primeiro apartamento. Quando ela foi promovida. Quando voltei de férias, após quinze dias longe dali. Quando ela voltou da viagem de negócios.

Dia desses ela ligou-me à tarde. Queria conversar no café.

Encontramo-nos. Ela estava ansiosa. Contou-me que amava seu marido, amava seus filhos. E que iria mudar-se para a França. Seu marido iria trabalhar em uma multi-nacional por lá. Ela arranjou um emprego na filial da sua empresa naquele país. Deu-me um beijo sem precedentes. Abraçamo-nos com uma força e paixão tal que até hoje sinto arrepios em relembrar. Deixou uma caixinha embrulhada em papel fino, em cima da nossa mesinha: era para quando eu sentisse saudades dela.

Ontem estava eu sentado naquela mesa que testemunhou nosso passado. Não trocamos e-mails, telefones, nada. Não sei mais dela nem ela de mim. Pensei vê-la ao longe, senti saudades daquela mulher. Abri a caixinha. Tinham algumas dezenas de fotos. Eram fotos do sistema de segurança do café, fotos de nossa mesa, fotos em que sorríamos, conversávamos ao embalo de uma chícara de café. Fotos em preto e branco. Fotos da gente se abraçando. Datadas.

Olhei para o Alfredo, dono do café. Ele apenas sorriu. Cúmplice da mulher que verdadeiramente se apaixonou por mim. E eu, platonicamente, por ela.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.