Capítulo final do livro 2

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Fotos em preto-e-branco na parede. Um garçom despreocupado com a vida. O dono do bar, fiel ao futebol no rádio de ondas médias, alheio à tudo.

Na pequenina mesa de madeira, bamba e gasta, um diálogo caloroso e intenso. ali a luz apoucada deixara uma penumbra esfarelenta de escuridão suja. Gente ociosa vagando pela calçada úmida. Pouca gente. Mais vento gelado de inverno mesmo, assoviando tristonho.

Entreolharam-se o casal da mesa bamba e gasta. O desespero de não saber interpretar olhares intensos deixou aqueles dois pares de olhos, assustados.

Uma leve brisa derruba um guardanapo. Abaixaram-se juntos. Mãos entrelaçadas sem querer. Olhares, agora na altura dos joelhos. O beijo era a única certeza aparente.

E beijaram-se oras! Embaixo de uma mesinha bamba de bar deserto, pode?

A noite era de domingo moroso: olhares, um beijo furtivo. Madrugada gelada. E tudo isso enquanto o mundo adormecia.

Ou fazia amor.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.