Blogueiros Falidos

Curtir Aguarde... descurtir
 
0

Uma das piores desgraças que pode ocorrer com uma pessoa que se mete no mundo dos blogs é a «fama-repentina-por-uma-sacada-genial».

O camarada acorda um belo dia — inspirado como um Picasso no cio — e resolve reinventar o Gênesis: escreve um texto genial, desenha uma quadrinha hilariante ou cria um infográfico, supertrunfo, mapa de alguma coisa na visão de algum grupo, dicionário-tradutor para algum dialeto da moda ou até mesmo uma youtubada bem-feita. 

Publica, com um fio de desconfiança. Manda o link para meia dúzia de amigos que acham graça e estes replicam, em uma espécie de corrente do bem. Duas horas de muita progressão geométrica bastam para realizar o estrago: milhares de comentários, “bandwith exceed”, links e citações matando a pau. 

E é ai que o sopro-negro aponta.

O infeliz sente a massagem da fama nos tendões inflamados das juntas e tenta viver como se fosse um músico de um sucesso só.

Vangloria-se de ter marcado um ponto na história da internet.

O problema é que a sociedade virtual — em volta da sua originalidade — pressiona e pressiona por mais pérolas. E o pobre diabo sucumbe. Não consegue mais matar um leão por dia. Era acostumado com petardos e tombapés em jaguatiriquinhas caducas.

Belíssimos blogs morreram assim. Gente boa de outrora venderam a alma aos grandes portais. Blogueiros entram no tapa para garantir a originalidade de piadas públicas. A coisa é patética. E o quibe, cru.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

0 comentários