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Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva. R.Spegel, circunspecto vivencial, galanteador barato por conveniência física e peripatética e só. Inteligência e sagacidade, para quê! Bruto.

Giancarlo V., 1922: in, Recheaux d’aveux

Escrever uma biografia é atingir o ápice do auto-idiotismo literário. Escritor sério não perde tempo com esse tipo de falácia. Qualquer biografia é tendenciosa. A que redigi abaixo, há sete anos é completamente mediocre. 90% do que foi despejado aí já melhorou ou evoluiu. Mas vá lá: antes que você me conheça por um meio convencional do que pelo linguajar chulo da boca-pequena da zona vermelha.

Esse blog é uma auto-biografia dos meus pensamentos.

Um eu, estranho ao mundo, quem sabe. Mas nada real, nada retrato. Não condiz com a minha explícita.

Por isso reescrevo algumas cronologias de vida — novamente — rebatendo o passado. Ei-la:

Sou de 78. Era novinho há cinco anos atrás. Hoje vejo que o tempo é um cão sarnento implacável. Nasci no interior do Paraná. Cresci pelo mundão, estacionei em Curitiba. Migrei para Brasilia. Resolvi largar tudo novamente. Fui para Londres, aquela capital inglesa. Continuo brasileiro, alemão, polaco, italiano, chinês e japonês. Talvez um pouco inglês, mas só quando me convém.

Tenho olhos que eram castanhos escuros, hoje esverdearam e estão em cores transitórias e esquisitas. E não tenho idéia do porquê. Aliás, tenho duas doenças novas, permanentes e incuráveis. Doenças não: disfunções, como minha médica adora sublinhar. A velhice, amigo. Depois dos 25 a montanha-russa só desce.

Continuo viciado em internet, continuo com o som de carro barulhento e ainda quero ter um Porsche, apesar da impossibilidade real. Aliás, morando fora esse sonho começou a ficar sério novamente.

Desde o verão’97 escrevo textos para a internet. Não que isso seja uma qualidade. Eu era jovem e meus textos, imaturos. Comecei com poesias e descobri que os poetas são uns fodidos. Escritores potenciais e preguiçosos por assim dizer. Eu era preguiçoso naquela época. Achava que sabia de tudo. Um poeta e prepotente.

Tenho vergonha do que escrevia.

Larguei a poesia em um canto. Larguei a vida de estagiário, cresci, comprei um carro, arrumei um emprego legal. Fazia a barba duas vezes por semana.

E continuava a escrever textos. Poesias nunca mais.

Desses textos, muito lixo, confesso.

Entao montei um blog com um titulo estranho. Uma das maiores cagadas que já fiz, convenhamos. Pô, era um domínio com nome de coisa ilícita, narcotizado. Só por isso, consegui atrair uns 300 junkies por dia, segundo as estatísticas. E também consegui a repulsa dos bons humanos, dos escritores sérios. Dos poetas de luxo. Da sociedade correta.

Sou um crápula da linha da marginalidade virtual.

Da velha linha de ocupações mil que me eram orgulho (design, literatura, mecânica, computadores, mulheres que me intrigam, esportes radicais não convencionais, montanha, cyberspace, terra/lama/barro, molhar-se na chuva, blablabla), esqueça isso: bobagens. Fiz tudo tantas vezes que não são mais importantes. Hoje a vida tem um pouquinho mais de sentido e algumas prioridades existenciais ganharam muita importância. Antes era eu um revoltado com religiões e dogmas inúteis. Hoje, não mais. Era medo ou preguiça, vai saber.

Continuo com os quase dois metros e isso não quer dizer nada. Continuo não torcendo para time algum. Canhoto para sempre. Música? Época de jazz, alguma coisa eletrônica inteligente. Perdi totalmente o pique dos heavy metais, hardcores e gritarias. Coisa da idade.

Namorei por 5 semanas corridas ou um ano picotado. Casei. E com isso aprendi algumas coisas perfeitas e inimagináveis que um dia qualquer (quiçá uma nova biografia inútil) contarei.

Concluí um superior de publicidade. Fui empresário por 6 meses, de papel passado e tudo mais. Da minha vida profissional náo falo nada, mesmo porque chefes lêem blogs, sabia?

Não gosto de fumaça de cigarro. Náo gosto de drogas. Nem de drogados. (coisa do auto-retrato do fracasso e tal, qualquer dia o tio conta) Não gosto de bebidas. Nem o social mais, acredita? (exime-se disso o bom vinho degustado em almoço de domingo. Isso náo é beber, é apreciar, fique claro.)

Continuo a perder amigos e isso é uma coisa normal. Convivo com perdas e ganhos desde que terminei a pré-escola e isso não me assusta nem um pouco. “Evolução-descontinua-e-paralela” é como chamo isso.

Já consegui começar um monte de coisas legais para minha vida. Levei uns 10 anos para me formar em uma universidade. Estudei uns cursos que pareciam interessantes e percebi que todos eram adultos e sérios demais para mim.

Fiz umas besteiras fantasmagóricas na minha juventude como qualquer adolescente sadio. Aí, com as oportunidades da vida, consegui escalonar alguns potenciais para me escorar e seguir.

Eu podia ter me dado muito bem na vida. Podia ser mais sério, poderia usar umas roupas novas, mais sociais e adultas. Talvez hoje eu fosse um adulto bem sucedido, com salário interessante e  tal e qual notado na vida.

Mas não é bem por aí a coisa.

Vejo que minhas escolhas não são de um todo, erradas.

Comparo-me com alguns colegas. Alguns hoje são doutores, mestres. Dão aula, possuem filhos. Uma casa e uma vida profissional abundante. Possuem empresas rentáveis até. Conhecem a Botsuana, Timbuktu e Bucareste. Tudo pelo trabalho.

Mas a coisa descamba sempre para isso! Trabalho!

Não perguntam-me, depois de 10 anos de obscura falta de contato, sobre o que sou. Perguntam-me com o que estou trabalhando agora.

Minto. E muito. Sou capaz de criar um mundo à parte com personagens e factos que jamais aconteceram.

E tudo isso faz parte das coisas com o que trabalho. É um mundo caótico, desestruturado, muito mais obscuro e intrínseco do que você aí, que dá aula e sabe quem é Van Der Vaals, pode imaginar.

Gosto de sacanear pessoas normais e robóticas.

Inspíro-me no medo e na fraqueza.

Acredito em Deus. É que eu me tornei agricultor sério nos finais-de-semana (tenho um gramado e quintal). E não tem como ser ateu numa hora dessas.

São essas coisinhas aí em cima que definem uma pequenina base do que sou. Mais do que isso e vossa senhoria entediaria consideravelmente. Afinal de contas, ninguém quer mesmo conhecer gente. Já ouvi de amizades próximas que eu aparentava ser um arrogante e babaca em primeira vista. Outros, que sou um amorzinho, carismático e afável.

Muita coisa que você (talvez) tenha lido aqui no blog são verdades absolutas. Existem uns textos que são tão verídicos e assustadores que ninguém acreditaria. Outros, inventados na hora.

E a maioria deles, invariavelmente, mostram na lata como eu sou.

E sabe do mais interessante de tudo?

Continuo babaca, arrogante e um amor de pessoa. Todo mundo é legal até você conhecer direito. É estilo-de-vida essa imprevisibilidade toda, sabe como?