As primeiras coisas

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O motivo foi a curiosidade. Algum momento significativo, uma desculpa sem nexo. O suficiente para aceitar aquele beijo. Incandescente beijo, acompanhado de uma deliciosa e trôpega respiração.

Era um primeiro beijo.

O deliciar dos carnudos lábios passeando e encontrando-se — ritimados em um allegro — mostravam-se decididos: Não seria beijo frenético, apenas passeio de lábios. Não adiantaria pedir, implorar, balbuciar palavras melosas, picantes. Naquele momento, naquela hora, apenas um passeio por lábios voluptuosos. Não beijarão, não estarão sedentos por uma mordida.

Apenas passeio de lábios, um convescote rotineiro em uma deliciosa boca trêmula.

Lábios vividos (apesar de nunca terem beijado), de boca que já mantém a compostura. Apenas beijar. Ou tentar desfazer um fogo em forma de batom.

Afinal, era um primeiro beijo.

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Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>