As boas-novas de Cambridge

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Cambridge é uma cidade boa de passear. Quando está frio e ventoso – durante a queima da pestana na hora mais triste da tarde de inverno causticante, há a loja de fudge para se abrigar. Cambridge tem cheiro de fudge. E fudge, para quem não sabe, é um doce mais doce que o doce de batata doce do Vale do Rio Doce.

Fudge.

A loja é quentinha e a fogueira à lenha embaixo do tacho cria um calor saturado de uma doçura enjoativa. Fudge combina com o verão de quentume úmido, chuvoso e grosso da engolida seca. A loja é quentinha e a fogueira à lenha cria um calor etéreo onde os micro-pingos de suor saturam na pele criando pequeninos riachos de suor que escorrem sempre para algum ponto inócuo.

Cada visita à Cambridge é uma volta no passado em torno de amizades e histórias. Fui arrastar minhas botinas por Cambridge. Já alcei passeios por lá inúmeras vezes. Mas a recente experiência conseguiu se tornar um conto de orelha de anotações para meu novo livro: Picardias do Esculápio (lançamento a ser definido por editoria independente).

Os chineses. Ah, os chineses. Não vou me aprofundar muito na questão econômica ou política. Os chineses dominam o turismo na Europa. Em qualquer cidade. Em qualquer canto.

Eles, os chineses.

Eles estão lá, te olhando. E não é para menos: a boca-miúda diz que o número de visitantes duplicou e são esperados cerca de 5.5mi deles por aqui no ano de 2017. É a classe média gigantesca criada pelo capitalismo que sobrepõe o comunismo por lá. Eles, os chineses. Eles são ferozes. O embarque no trem foi um empurra-empurra anormal para os padrões britânicos. Na horda de algozes maozentos, chineses desesperados por lugares. Avançaram como um bando de sanguinários para as poltronas com mesinhas. Abriram seus pacotes de comidas regionais escritas em um mandarim cheio de firulas. Alguns pega-turistas de Cambridge já arranham o mandarim. O alumnus da universidade – e que agora gerencia o aluguel de punts no rio Cam – têm um vocabulário de umas 200 palavras em chinês. E isso é impressionante porque mostra exatamente como o mercado turístico trocou o lado do disco.

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Os punts. Punt é um barco de fundo plano, proa e popa quadrada, desenhado para lugares de águas rápidas (mas não tão rápidas assim) e profundidades rasas.

Puntear é uma arte muito estranha. Vale a pena tentar quando o trânsito de punts-punts não está veneziânico.

Um dos punts choffeureados por um guia local encostou na margem à minha frente. A chuva pegava de mansinho. Desceram uma dúzia de adolescentes argentinos, calle-calle (sim aquele som de jota rasgando o quarteirão igual ao escape aberto da cgzinha). A mais bonitinha delas trazia uma sacola de compras, dessas de papel rosa com estampa de oncinhas. Chovia, eu lembro de ter contado. E a chuva causou uma intervenção artística na sacola de papel rosa. Rosa não, pink, mas aquele pink fluorescente feito com algum pigmento radioativo que eu tenho certeza que será banido do mercado daqui 50 anos porque é muito brilho sem usar pilha.

A chuva molhou o papel e enfraqueceu a estrutura das fibras de celulose.

A sacola rasgou.

Na minha frente.

E todo o tipo de calcinha, sutian, meias e adereços calientes (inclusive umas com a mesma tonalidade pink radioativa) caíram há 32 centimetros do meu pé.

— ¡ahhhhh que bolsa de mano me ha salido de puta madre!

Eu nunca tinha escutado um puta madre diretão assim, achei lindo. Porque foi ‹me. ha. salido. de. puta. madre.› Pausado. (Tentei lembrar a frase; foi algo assim, mas não posso garantir a gramática)

Certo, eu não fiz nada. Minha esposa estava do meu lado e segundo os mil e setecentos calculos por segundo de todas as hipóteses, causas, conseqüências com trema e o escambal, decidi não ajudar. Juntar calcinha. De uma adolescente bonitinha. Portenha. Na frente da minha esposa. Vai calculando aí o tamanho do petardo no saltapé auricular.

Cambridge tem um museu chamado Fitzwilliam. Se eu fosse recomendar um museu inglês para visitar e somente um: este o seria. Em um dia de semana. Especialmente no dia que bate a visita dos alunos da School of Arts and Humanities com suas pranchetas, pastéis e grafitos. No Fitzwilliam você pode chegar seu nariz há 8cm de um Cezánne, Picasso, Rubens, Matisse. Diz um nome aí. De um Romero Brito. De um Rodin. Você pode encostar, se tiver culhão suficiente.

Cansa, um passeio desses.

E na estação a visão periférica me avisa: alguma coisa fora do normal acontece na direita. Um homem gesticula rapidamente em frente ao telefone. Ele conversa em libras. Ele usa um aplicativo de video-chamadas e conversa em libras com alguém em algum lugar do mundo. Ele usa a tecnologia para suprir uma necessidade real que eu jamais tinha imaginado, até aquele momento, que era possivel. A cena era uma propaganda extasiante, se tivesse uma música incidental tocando eu teria chorado. Porque ver a tecnologia que é tão desgraçada e capitalista funcionando de maneira perfeita é uma das coisas que mais me agrada no mundo.

Cambridge é uma experiência tênue e imperfeita, única no sabor.

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Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

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