As artes visuais

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Todo dia preciso ser criativo. Sabe como é, a casa egége. Existem várias formas de se fazer criatividade, mas hoje vou ensinar a mais saborosa, que não tem adição de açúcar, lactose, frutose, mitose, meiose nem glúten

 

Redução emulsificada de criativo espitiçado
Ingredientes:

  • Um criativo sadio e sem casca;
  • Saúde à gosto;
  • 400g de finanças estáveis;
  • 2 litros de curiosidade fresca
    (substitua por pinga ou garrafada se quiser)
  • 1 conexão de internet.
  • 1 maço de erva-de-procrastinação
Modo de preparo:

Misture tudo. Reserve.

Aqueça o forno à 250 bola C. Ajuste o timer para 2 horas. Quando faltar 5min pode deixar que a procrastinação vai espumar e o criativo pula sozinho para dentro do forno.

Sirva imediatamente antes que a ideia xuringue.

 

Essa é a receita básica de um criativo (peça inteira) Se faltar algum ingrediente na lista – ah! meu amigo – a massa desanda.


Assim é a minha vida. Parece um prato gourmet (como essa emulsificação reduzida) que é extremamente sensível ao meio e as intempéries do dia-a-dia. Qualquer coisa afeta a criatividade. Desde a perda do horário do despertador até a comida de rabo colossal de um diretor qualquer.

Descobri que tenho um olho podre. Tá, não é podre, só estou dramatizando para você comprar logo o produto.

A primeira pancada foi uma ecstasia corneana não-inflamatória progressiva nas duas bolas dos olhos. Assim uma das ferramentas mais importantes na minha cabeça começou a queimar óleo e fumacear. A medicina é legal (não é medicina legal) e assim resolveram esse problema com um pedaço de vidro flexível (igual ao da foto acima) que eu preciso instalar todo dia antes de querer enxergar o mundo 20/20.

“No princípio é como esfregar um punhado de areia em seus olhos. Depois você acostuma.”

Essa foi o primeiro conselho bacana para melhorar a minha visão. O segundo? ‘Isso aí é progressivo’ ‘O quão progressivo?’ ‘No máximo você vai ter que trocar suas córneas’.

Depois disso uma coisa que nunca deveria ser relembrada durante o dia começou a ser relembrada: o zói.

Que transtorno! Usar um bagulho rígido entre seu olho e a sua pálpebra é uma emoção. Comecei a ficar inimigo da luz excessiva e a me tornar quase fotofóbico.

A fotofobia é uma alergia nos pelos da retina, basicamente.


A fotografia é uma arte da escrita pela luz.

Eu gosto da fotografia. E não gosto da luz.

José Ribamar já dizia que escrever era um processo torturante e doloroso. Eu já digo que a fotografia o é.

Colocar o olho naquele buraco-de-oiá da camera é um processo muito delicado. Eu não sei qual é o mistério. Toda vez que me aproximo do vidro do visorzinho meu olho começa a suar. E quando o olho sua, a vista anuvêia. E quando a vista anuvêia, o cabra precisa de um bom par de segundos para se recobrar. E assim o passarinho-de-colerinha-celeste voa e eu perco a foto.

Repita esse processo toda vez que o sol bate.

Assim é a minha odisséia fotográfica.


Toda vez que você ver uma foto minha acredite: foi um processo doloroso e longo. E pode creditar aí um monte de foto que não prestou até chegar nessa preciosidade.

O bom é que eu sou alemão teimoso. E, enquanto existirem contrastes entre claros e escuros dentro dos meus glóbulos oculares, estarei tentando fotografar alguma coisa ou alguém.


Esse rodeio todo aí de cima na verdade era para explicar o por quê da minha ausência em redes sociais e nesse blog fedegoso. Ah, também descobri que tenho uma nova doença auto-imune na minha úvea, mas chega de falar de doença que eu acho isso um saco.

Sou um cara legal então abaixo vai uma meia dúzia de fotos de hoje (levei 50 minutos para fazer essas coisas, valorize o profissional!):

Galeria de

 

 

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

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