Arma de fogo

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Sempre que podia lá ia eu e meu vizinho da casa da frente para sua chácara. Seu pai ia a serviço, coordenar e ver a quantas a empreitada do pessoal rendia. Já eu e o Zizinho ficávamos saracoteando pelas matas ao redor. Como bons desbravadores, no auge dos nossos onze anos, achamos uma espingarda de fogo, na sede da chácara. Não sei como se chama essa arma, mas eu a conhecia como Flobé calibre 22. E achamos uma caixinha de munição, uns cem projéteis.

Meia duzia de tiros certeiros em uma lata de óleo foi a deixa para uma saída de caça. Eufóricos como deveria, qualquer coisa que cruzasse nosso caminho levaria bala. Até galinha.

Achamos uma clareira no meio de um capão de embuias e pinheiros. Armamos tocaia. A flobé era nova, tinha um monte de firulas. Mas o melhor de tudo era uma mira telescópica herdada de algum rifle do quartel, uma vez que o pai do Zizinho era militar reformado. A mira era muito precisa e tinha um alcance de aumento gradual.

Eu estava com a espingarda em punho. Senti-me o próprio atirador de elite. Quinze minutos depois pousa em um pinheiro, à média distância, um casal de curucacas. Para quem não sabe, a curucaca é um pássaro de grande porte, bico fino e alongado, muito bonito. Lembro-me que fechei a mira, firmei a coronha, pisquei rapidamente umas duas vezes, prendi a respiração.

O primeiro disparo do dia, para valer.

Certeiro.

O estampido seco do projétil está marcado para sempre em minha memória. Primeiro disparo, último disparo. Corremos, como dois predadores irracionais para ver a caça. O petardo atingiu abaixo da cabeça e quebrou o pescoço do pássaro.

O medíocre e insensato ar de superioridade imediatamente cessou, ao ver o animal agonizando seus últimos suspiros. Peguei-o no colo, ainda quente, mexia-se vagarosamente. Morreu em menos de um minuto. Zizinho estava aterrorizado. Eu, atônito, não conseguia pensar em nada. Deixei a carcaça do animal ali, ao pé daquele pinheiro. Voltamos os dois, sem conversar.

Fiquei a semana inteira ruim. Não conseguia dormir à noite. Imaginava, ainda como uma criança, se aquele pássaro era fêmea, se tinha família para cuidar. Pensava na saudade do pássaro que o acompanhava, se eram casados.

Aquele maldito momento em que eu acabei com uma vida, fez-me raciocinar por longos anos. E percebi, infelizmente, que um bom naco de minha inocência havia se perdido, para sempre.

Como a vida da curucaca.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

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