Aprendi a escrita quando não precisava

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A novidade é sempre seguida do abandono. Esse é o ciclo simples da mudança. A resistência faz parte do processo. Toda mudança é necessária e o resultado prático é a sobrevivência.

A minha letra mudou.

A primeira vez que vi um documento antigo exposto em um balcão da faculdade de história notei algo imensamente belo: a caligrafia perfeita daquela carta. Não tinha ideia de como se faziam as ascendentes finas como um fio de cabelo contrastadas com descendentes grossas e opacas. Nada de pauta ou guia?

Não existia internet na época;  guglar ‘como escrever caligrafia de carta velha’ era necromancia.

Aquela caligrafia tornara-se meu ideal de perfeição.

A internet chegou, o email aniquilou a carta escrita e as mensagens instantâneas soterraram quaisquer tentativas de escrever parágrafos com mais de 200 toques.

Duzentos toques. Datilografia. Trabalhos de escola agora impressos em Times New Roman 12 ABNT paragrafo de 1,5 folha de rosto não esqueça.

A novidade, novamente.

Escrever uma carta de próprio punho era muito pessoal. Nada interferia. A conversa entre seu sentimento e o papel, representada por uma letra que te entregava. Análise de caligrafia, como ela cortava o t, a letra bem arredondada. Pen Pals, amigos de um seminário na capital. Palavras mudas quiçá sussurradas; despidas por olhos ávidos e curiosos.

Quando mais precisei escrever. Quando menos liguei para minha letra.

Agora, hoje, amanhã, a caligrafia serve apenas para escrever nomes em convite de casamento brega. Ou fazer anúncios publicitários da letra branca pincelada em foto de filtro velho. Virou cult, mainstream, chique você.

Aprendi a escrever com tinteiro. 80 anos depois da tecnologia esferográfica matar o bico de pena. 20 anos depois de ver aqueles escritos no museu de história. Desenhar letras, brincar com tipos.

Escrever um cartão de aniversário para minha esposa, todo ano. Há 10 anos.

O tradicionalismo é uma resistência falha. A gramática mudou, fez acordo e a ideia perdeu acento. Dói escrever idéia e ver um tracejado vermelho sublinhado.

O grupo de calígrafos na rede social. Um bando de nostálgicos que ainda tentam manter a tradição. Deslumbrados hoje como me deslumbrei duas décadas atrás.

Gente muito nova descobrindo o prazer de desenhar letras góticas.

Fontes gratuitas que fazem isso sem o menor esforço.

O novo sempre vai te passar uma rasteira.

Basta saber quando pular.

Ou quando abandonar.

E cair.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

Um comentário

  1. Minha letra nunca foi uma belezura mas hoje é um garrancho sem-fim. Triste também é ver que não só a caligrafia se perdeu como a capacidade de fruir bons textos foi suplantada por memes na timeline.