Alexeyevich escreve.

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Eu estava numa rave. Era de manhã e eu estava sentado na grama, junto com a namorada do meu amigo. O sol brilhava mas não estava calor. Eu estava feliz e satisfeito por estar numa rave tão boa e pequena cercado de pessoas modernas, interessantes, bonitas, legais e antenadas com as mais novas tendências do mundo musical e sócio-cultural. A namorada do meu amigo estava linda, com cabelos soltos no ar e um rosto bem delineado e nós conversávamos sobre nossas vidas. Eu falava pouco e ouvia muito porque as palavras embolavam na minha boca e saiam desconexas e sem sentido. Eu olhava para minha amiga e tentava me concentrar no que ela dizia, mas era muito difícil porque eu não conseguia deixar de prestar atenção no intenso brilho que tinham as pupilas dos seus olhos. Os olhos da minha amiga brilhavam como se fossem duas estrelas e eu até podia ver as cinco pontas da estrela que havia em seus olhos refletida em suas pupilas dilatadas. Eu não estava mais sequer ouvindo o que ela me dizia e eu pensava comigo mesmo como é que dois olhos podiam brilhar tanto como se fossem duas estrelas. Foi então que uma coisa extremamente interessante e divertida aconteceu. As duas estrelas saíram de seus olhos e começaram a voar vagarosamente como fadinhas em volta de nossos corpos tilintando e brilhando. Minha amiga também percebeu a presença das estrelas e ficou tão atônita quanto eu, reparando no vôo swingado daquelas duas estrelas. Elas passavam em volta de nossa cabeça, por baixo de nossos braços, se encontravam e se distanciavam sem nenhum nexo. Foi então que elas subiram mais ou menos uns dois metros de altura sempre acompanhadas por mim e por minha amiga e ali mesmo elas colidiram explodindo em uma linda chuva de luzes em pleno domingo de manhã. As pessoas que também estavam na rave sentadas na grama olhavam admiradas e todos nós estávamos muito felizes em presenciar aquele incrível e inesperado efeito astronômico em pleno domingo de manhã. A chuva de pequenas luzes nos banhava e eu e minha amiga gargalhávamos de felicidade. Nós nos abraçamos e nos levantamos e começamos a dançar de mãos dadas ao som do tilintar das luzes caindo sobre nós. Percebi que a grama se tornara azul e o céu cor de laranja, as nuvens eram verdes e as luzes que choviam brancas. As cores brilhavam muito mais do que num dia de domingo sem rave e eu e minha amiga caímos de joelhos na grama novamente, rindo muito e esbanjando felicidade e simpatia. Foi quando eu olhei para o chão e percebi que tão logo as luzes caiam no chão se transformavam em bonequinhos de corda coloridos com mais ou menos uns 5 centímetros. Cada bonequinho tinha o formato de um personagem histórico e eu achei isso impressionante e surpreendente. Eu peguei do chão o bonequinho do Louis Armstrong, dei mais um pouquinho de corda e o coloquei de pé na palma de minha mão. Ele então começou a se mexer mecanicamente e a cantar What a Wonderful World para minha amiga. Ela ficou maravilhada e eu pensava divertido o quanto a tecnologia não tinha avançado para que se produzissem bonequinhos tão pequenos fazendo coisas tão legais. A grama estava repleta de bonequinhos de personagens históricos. Eu via bonequinhos de grandes líderes, ditadores, assassinos, estrelas do rock, top djs e grandes profetas. O bonequinho de Louis Armstrong terminou de cantar sua musica e minha amiga me deu um beijo e o guardou em seu bolso como recordação daquele momento tão especial. A chuva de luzes brancas parou e tudo o que se via no chão eram milhões de bonequinhos de corda fazendo uma caótica algazarra e cobrindo todo o jardim do sitio onde acontecia aquela rave. As pessoas que estavam na festa começaram a engatinhar pelo chão procurando os bonequinhos dos personagens que eles mais admiravam para guardar de recordação. Eu olhei para os olhos da minha amiga que estava tão feliz mas não vi mai neles as estrelas e então pensei saudoso que talvez eu nunca mais presenciasse aquele estranho efeito tecnológico e astronômico. Eu pensei comigo que era melhor não me importar com isso e apenas guardar aquele momento na memória para sempre.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>