Ah, Dona Fifi

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Feijão era catador de latas. Descendente de algum quilombo, estirpe negra, rapagão forte e alto.

Diariamente juntava uma carriola completa, a qual lhe rendia algumas lascas ao final do expediente. Com o tempo aprendeu a ficar amigo de donos de bares, os quais preferencialmente lhe davam latas já amassadas, facilitando o seu trabalho. Sabia até quais bares eram mais generosos, quais lhe serviam sobras graciosas de petiscos e afrescos diversos.

Sua labuta diária era rotineira. Sempre o mesmo trajeto, os mesmos barezinhos, a comida, generosamente granjeada. Uma vida bem pacata e morosa, por assim dizer.

Dona Fifi, uma ascendida social, residente de uma das finas coberturas que faziam contraste com a orla, interessara-se por Feijão. Todo dia observava o esbelto corpo delineado pelo braçal serviço. Sabia o horário em que aquela lenta carriola, carcomida pelo desgaste, religiosamente trafegava em frente ao seu caminho. Fifi, ansiosa, precisava parar aquele negrão. A cada dia que passava, maior e mais intensa era a sua vontade de possuir aquele conjunto!

Dia desses, chamou seus seguranças. Explicou-lhes o que deveriam fazer. Sem pestanejar, agarraram Feijão. É claro que os dois homens de terno, formados em alguma escola de segurança, renderam prontamente o gari que, sem pestanejar, foi levado junto de sua carriola à imensa garagem, entre luxuosos carros. Atônito e sem saber o que dizer, Feijão paciente esperava no que aquilo daria. Seqüestro, óbvio que não era. Tentava lembrar se havia flertado com alguma moçoila da região. Sabia que isso era perigoso. Não estava, no momento, devendo dinheiro à ninguém. Suas apostas no bicho eram religiosamente pagas em dia. Estava perdido, não sabia realmente o que acontecia ali.

Dona Fifi surge dentre os carros. Encara Feijão. Saca uma luva de pelica branca, nova. Com certo esforço consegue virar a carriola, despejando as inúmeras latas amassadas, ao chão. Começa vagarosamente a retirar o anel de alumínio de uma lata. Joga-a em um canto, o anel em uma caixa. E assim repetidamente foi, durante algumas horas. No final havia separado mais de cinco mil anéis prateados. Soltou Feijão, que sem nada entender, juntou as latinhas e foi embora.

Dona Fifi queria trocar os anéis de alumínio por uma computador.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.