Agnóstico fervoroso

Curtir Aguarde... descurtir
 
0

A Catifunda insistiu muito para que seu pai fosse à missa. Era sua primeira comunhão, queria a presença do paizão por lá. O velho, por conveniência social se entregou ao desejo sem muita briga e aceitou o convite. Era agnóstico, acreditava em Deus, mas não engolia de jeito nenhum princípios religiosos.

Como combinado, Cacilda adentrou à igreja, com um belíssimo vestido branco rendado, escoltada de pai e mãe. Era cidade de interior, noite sem lua e igreja isolada na vastidão dos campos alhures. Seu sonho estava se realizando! Os três se acomodaram nos bancos. O pai colocou suas botinas no genuflexório. Catifunda o reprovou com severidade. Ele emburrou e cruzou os braços. A cerimônia estava por começar. A mocinha foi à frente junto aos outros catequizandos.

O bispo era peripatético, italiano e falador. Suas histórias intermináveis deixaram o pai da moça completamente entediado. O calor que estava dentro daquela igrejinha, no meio do nada também contribuiu, em partes, para que o velho dormisse em plena cerimônia.

E não é que acabou a luz na igreja? A escuridão com que tomou aquela cena foi de deixar todos em um completo e profundo silêncio. O bispo pediu a todos que cantassem, junto dele, a hosana nas alturas, enquanto a luz não voltasse.

E assim todos cantarolavam, baixinho, embalados pelo escuridão total. A cena era envolvente e harmoniosa. O coro reverberava pelas paredes, aquelas plavras eram enebriantes.

Acontece que o pai de Cacilda começou a roncar. Sua mulher, tentando acalmar a coisa, tascou-lhe um safanão na sua cabeça, que o fez acordar assustado.

Ele não percebera que a luz se apagara, estava completamente perdido: “Caramba! Morri” Pensou de imediato. Arregalou os olhos mas não conseguia ver nada. Só escutava o coro da hosana. “Isso deve ser o purgatório, não vejo nada mesmo com os olhos abertos!” Estava incerto de sua fé-cega.

Uma voz ao longe, vociferou:

— Você pecador, reflita nesta escuridão sobre seus pecados. Abra seu coração à Deus.

Óbvio que era o bispo que falara aquilo no intuito de distrair o povo naquela escuridão. Mas como o pai da menina estava completamente perdido e percebendo-se sozinho no purgatório, começou a falar de seus pecados. Eram intrigas passadas, galinhas roubadas, mulheres profanas, brigas de bar. E quanto mais falava, mais lembrava. Quando terminara de contar o despudorado fato de cobiçar e bulir com a mulher do vizinho, a luz voltou a incandescer as lâmpadas da igreja. Todos estavam rubrorizados com as palavras.

Depois disso o pai da Catifunda deixou de ser agnóstico. Ficou com raiva da igreja e virou ateu.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>