A violência da internet hodierna.

Curtir Aguarde... descurtir
 
0

A internet e a mobilidade — quem diria — matam este blog. O processo já era esperado. A volatilidade da informação é impressionante e, em um piscar de olhos, o mundo já atualizou todas as noticias da página inicial 86 vezes.

—-

Eu sou do tempo do LP. Peguei o rabicho da época. Morava em cidade do interiorzão. Ainda lembro do parto que era pagar uma nota preta em um disco com 6 faixas de cada lado. Doze músicas, quinze no máximo. Aí tinha toda a novela de chegar em casa, desempacotar o bolachão, rodar ele com os indicadores em cada borda externa para achar o Lado A, colocar no 3 em 1, ajustar a agulha mais ou menos no início e soltar a alavanquinha que fazia o braço descer suavemente até achar a trilha. Depois, enquanto tocava a #1, era só ler e reler a capa, contra-capa, folhetos internos e, meio raramente, abrir um pôster promocional de banda.

Com a chegada do CD a coisa não mudou muito: o encarte ficou menor, o processo da agulha automatizou pro raio laser e passar música com um controle remoto melhorou muito o sedentarismo no sofá confortável.

10 anos depois o download de músicas fodeu com todo esse ritual. E com as bandas boas. E com a criatividade atemporal.

Hoje em dia tenho milhares de álbuns completos no meu computador. Já enjoei de todos. Comprei muitos por menos do que valiam, só porque eram virtuais. Cheguei ao ponto de contar minha discoteca por gigabyte, não por álbum. O pior de tudo é que se consegue comprar uma só música. Aquela que tocou no rádio e que você gostou. E isso automaticamente mata todo o processo de conhecer as ‘lado B’ que talvez, com o tempo, você gostaria de ouvir numa fossa qualquer.

—-

Essa introdução gigantesca era apenas para mostrar como a internet é uma mulher ingrata, que te beija e te abraça, te rouba e te mata. Blogs foram sinônimos de contextualização independente. Gente que tinha blog era gente que escrevia e gostava de publicar textos para um público completamente anônimo e incontrolável. A idéia de semear palavras na internet era fantástica: imagine que um presidente de uma multinacional, uma atriz famosa, um pedreiro, uma mulher gostosa, outra inteligente ou até o matador das balas dumdum poderiam ler o que escreveu. E gostar, te seguir ou estalquear. Assim era o mundo dos blogs.

Nunca descobri ao certo qual foi a linha tênue rompida que suicidou todos os blogs legais, de escritores anônimos talentosos. A mesma linha que transformou blog em sinônimo de copy’n’paste de tirinhas e piadinhas enlatadas internacionais. O fato é que conseguiram destrambelhar uma coisa legal, transformando em um repositório de xorume, tirinhas porcamente traduzidas e vídeos idiotas repetitivos. Blog famoso hoje em dia é quem tem mais AdSense. Blog famoso hoje em dia é quem consegue clamar “você viu primeiro aqui” um conteúdo que nem original era.

Ok, os blogs morreram. Ainda existe meia dúzia teimando em escrever na sobrevida da dispersão de juízo. Mas a internet é uma gosminha que nunca pára. Textos como este são loooongos e demoraaaaaaaados para ler. A lei do Imediatismo. O cara quer tuitada. Brevetas. A mina quer fotinha. Nada de lenga-lenga minha nêga. Agente é a gente, saca?

—-

Continuo aqui resmungando. Nem sei mais pra quem escrevo ou se existe vida inteligente (tirando o _Google_Bot_Indexer) que ainda visita esta página.

E, olha só que ironia: vou atualizar o leiaute deste blog. Criar um ‘layout’. Criar. Quer coisa mais piegas que isso?

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

5 comentários

  1. Sim, está certo de que a internet caiu numa mesmisse, ridícula de tirinhas, memes, e videos repetitivos, mas graça a uma força maior que eu particularmente tenho como Deus, ainda existem pessoas que gostam e gastam tempo com conteúdo, vale se falar que acompanho o blog desde que ainda chamava-se ópio ? que quase tive um troço quando voce desativou o ópio junto com milhares de textos que hoje estão na coluna L’amour… que ainda me pego as vezes relendo-os( cheguei a te pedir por email o conteudo antes de por um ato de bondade, voce os republica-los-eles) , sem contar nas ilustrações como matadoiro de demonho, sensacionais. Enfim … continue!

  2. A gente sempre tem coisa pra escrever e sempre vai ter quem leia. Não é pq o mundo, em geral, vive de pão e circo que não tem gente afim de pensar um pouco. Por essas poucas pessoas que não abandonei meu cafofo ainda, isso pq ele anda bem empoeirado e cheio de lixo.