A velha cidade (e o velho)

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O velho, cheio de preocupações, era vencido: chovia, ele resfriava. Um resfriado qualquer, ele gripava. Fazia calor, ele brotoejava. Tosse? Quase perdia os tubérculos.

Era bonachão, mas depressivo-sintomático-problemático. Vivia o lado triste da vida.

Sabe aquelas pessoas pessimistas, as do copo meio vazio?

Pois bem, esse velho infeliz.

Belo dia ele entendeu que a cidade havia envelhecido com ele. Xuringavam as rugas como as dele. Entortavam as colunas dos prédios como a coluna bico-apapagaiada dele.

A cidade acinzentou, mofou os cantos e encardiu.

— Cidade tórpe — resmungava. Não soube viver com dignidade. (Como se ele vivesse.) Entre parênteses.

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Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

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