A tecnologia é quem dita a regra.

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Quando inventei de manter um terreninho na internet no final do século passado foi porque senti necessidade de reter algum conhecimento compartilhado livre. Não existia esse conceito doido de redes sociais e de interação facilitada. Criar um blog ou um site pessoal era um parto e a atualização diária era quase impossível.

O bom é que logo apareceram ferramentas diferenciadas: Blogger para quem não tinha endereço próprio ou então Movable Type para gastar um tempo configurando e personalizando o mundinho ao extremo.

O povão gostou de ser social. E isso foi ótimo! Milhares de excelentes blogs surgiram com pessoas criativas e textos fantásticos. Fotografias, desenhos, gráficos, literatura pesada e até composições musicais. Os blogs eram a terra santa e seus donos, reis barbudos de chapéus engraçados.

Mas a internet é um cão sarnento que não sossega. Surgiram os fotoblogs com moblogs e os publicadores assíncronos como Flickr e PBase. Orkut – a reinvenção do fórum – para recobrar a memória da adolescência tacanha e reavivar amizades que não precisavam ser relembradas. Redes sociais e a dicotomia inevitável da atenção.

Os fortes foram morrendo, aos poucos. Gente que eu imaginava escrever literatura digital para sempre? Fecharam as ‘portas:oitenta’ da interação.

Twitter para postar idiotices levianas que não valiam expandir dissertação sobre. Facebook para matar Orkut e fugir da favela; e postar as fotos mais podrinhas que jamais caberiam em um Flickr, claro. SoundCloud para as músicas que d’antes tinham que ser redimensionadas para stream no meu próprio blog.

A multinteração se espalhou por redes sociais tão impossíveis quanto o LinkedIn da sociabilização profissional. O que era impossível do ponto de vista tecnológico aconteceu: videologs.

Isso gerou a primeira revolução em blogs: os reis barbudos morreram e os novos replicadores capitalistas iânques apareceram. Traduções de piadinhas gringas e geração de conteúdo rápido para alimentar redes sociais. Tumblr, Reddit, Pinterest, marcações rápidas para quem não tem mais saco de parar cinco minutos para ler. “CatTUBE” e gente se arrebentando para render audiência. PPC, CPM, GA e métricas que antes eram assuntos do planejamento de agência hoje cutucam os analistas de social media. Analistas de SOCIAL MEDIA!

Instagram para a playboizada dos iphones postarem seus sushis e que se espalhou para Android e inundou o mainstream com imagens que evoluíram o conceito fotográfico universal.

E assim o mundo do blog morreu, minha gente. Ninguém quer saber de textos com mais de 140 letrinhas. Ninguém quer saber de coisas estáticas. E lerdas. A leitura cansa e a multimédia esmaga de forma letárgica. Quem ainda usa blog para escrever é porque ficou velho e perdeu o bondinho da evolução digital.

O povo empreguiçou o olho e só há uma coisa que se possa fazer: seguir o fluxo da interatividade cada vez mais imediata e descartável.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

3 comentários

  1. Sempre vai ter um doido para publicar bons textos e meia dúzia de doidos para ler, o resto é moda, que passa a cada estação, só que algumas estações duram um pouco mais.

    O que importa é o conteúdo e na boa, 140 caracteres não carregam conteúdo algum, só se forem 140 ideogramas 🙂

    Resta saber o quão forte somos para aguentar a pressão. Eu to quase espanando… mas não por causa da tecnologia, é que minhas idéias estagnaram e parece não ter desfibrilador que dê fim à esse colapso.

  2. Bem assim mesmo. Quando o ICQ abriu o mundo da comunicação instantânea, troca de idéias, confidências, etc., já estava se embrionando esse rol de mudanças. Nem sei se ele foi o primeiro programa de comunicação, mas é o que eu lembro. Teu artigo bem retrata a atual situação da comunicação. Fico doido de ver todo jovem andando na rua feito zumbi, às vezes abraçando postes, às vezes dando topada, esbarrando em gente, quiçá tendo seus bolsos ou mochilas aliviados de peso extra, mas com as duas mãos digitando freneticamente algo. Precisa ser o dia inteiro? De onde sai tanta conversa digital? Se for para entabular meia hora de conversa real, cara a cara, duvido que saiam mais que meia dúzia de frases…