A rotina

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Agenda lotada de páginas branquelas esgotadas. E dessa agenda, grande parte dos compromissos de ontem, reescritos no amanhâ. E postergados e postergados. Isso é rotina.

E sabe por quê?

Porque nunca dá tempo! Não existem horas suficientes no dia, dias insuficientes dessas horas na semana. Nunca sobra tempo para que se faça o que se tem de fazer.

Isso é rotina. É o adiar para amanhã.

E indefinidamente faltará tempo para que se faça tudo o que se tem de fazer. A agenda com as folhas branquelas e lotadas carcomem os vãos livres vivenciais e a vida (a vida!) se vai adiada.

Os livros bons, adiados.

Os filmes velhos e legaizinhos em DVD pirata que você tem da Santa Efigênia? Infinitamente adiados.

Discos adiados.

Telefonemas adiados.

Trabalhos legais para depois mais.

E esperamos o tempo livre do final de semana para fazer isto, aquilo e não sei mais o quê. E nunca fazemos, porque quando chega o sábado já estamos cansados de todas as nossas metas e acabamos deixando um tanto de coisas para semana que vem, sabendo desde sempre que não as faremos, que nada sairá como o planejado.

E nem tudo é uma questão de prioridade.

O que acontece são meras coincidências perdidas no meio de um número interminável de outras coincidências, que até gostaríamos de viver, mas para as quais nunca teremos tempo.

Mesmo sabendo que poderíamos aproveitar diversas horas de nossas vidas construindo-as de uma maneira produtiva.

Por isso a preferência de nos render ao nada. Por vadiagem ou simplesmente por saber que, no final das contas, o que somos, o que temos e o que sabemos não fará, realmente, diferença alguma.

E, às vezes, é bem melhor assim.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>