A resignação essencial.

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Existir é complicado. Agora existir e viver é quase impossível. O mundo está acabando com os esconderijos sentimentais e a internet veio para arreganhar o imediatismo social. A própria vida está por um fio: viver a vida dos outros em redes sociais é mais bacaninha e se torna um placebo para amainar o fato de que a sua vida indelevelmente é um saco.

Talvez esse seja o motivo pelo qual eu abandono tudo. Esse abandono é o pior de todos: ignorado aos poucos e deixado de lado sem ser percebido. Não tenho tempo para cinema, livro ou tv. Aliás eu gostaria de comprar uma tv para assistir umas novelas ou aqueles programas de policiais que perseguem imigrantes ilegais. Ou ler o Julio Verne em inglês que está juntando um poeirão danado no criado mudo. Mas o resultado dessa abstinência letárgica toda é que sou obrigado a viver e existir o tempo todo, sempre olhando para o que a realidade quer me apresentar. E isso cansa pra caralho, porque é um seriado enlatado em que a atuação consegue ser mais enfadonha do que ler alguma peça de Shakespeare achando que vai encontrar uma narrativa legalzinha. Aliás, seriados são coisas perigosas: morrem sempre na season eight, vai vendo.

Eu sou previsível demais. Não tenho paciência para jogar Xadrez. Cinco minutos de estratégias e eu já estou tão de saco cheio que começo a mandar um-a-um todo o elenco para um ataque suicida em cima do casal real. É derrota na certa e eu sei disso. Imediatismo virtual, novamente. Escuto vozes e as ignoro. Aliás, escuto vozes, converso com elas e passo horas a fio tentando entender o que elas dizem. No final das contas nem meus próprios pensamentos são entendíveis.

Moro em uma cidade que vive e existe o tempo todo, sem cessar. Tropeço em novidades sem saber, conheço a história sem querer. Encontro gente famosa o dia inteiro e meu chefe é uma estrelinha do show biz mundial. Consigo identificar sotaques e idiomas que jamais imaginaria outrora. Sou um insider de algo que nem tenho idéia do que seja. Vivo uma vida que está trancada e nunca ao certo descobri a fechadura; ou pior, nem a chave tenho para o dia que descobrir onde essa fechadura se esconde.

Este blog virou um reflexo transparente dos meus anseios vazios. Existe porque tem uma armação fajuta de poucos pixels. Não morreu ainda porque nem vida tem para que eu pudesse matar a gosto e com espadilha forjada. A tristeza de se revelar assim é a escusa de que nada, ao certo, tem razão proposital. Não gosto mais de fotografias nem de inventar histórias estapafúrdias. Contos são invencionices que se esgotaram em minhas idéias e poesias continuam tendo conotação de fuga para escritor vagabundo. Ilustrações são para ilustradores que têm linhas constantes e criativas, já saltei dessa há tempos.

Não me resta mais nada a fazer, além de espreitar o horizonte. Nunca imaginaria que criatividade pudesse ter prazo de validade ou pior: validade por uso excessivo.

Assim o que resta é viver a vida dos outros. Vidas constantes, sem eufemismos e tão rasas quanto a minha. Mascaradas com uma artificialidade tão sensata que eu juro que seria verdade absoluta se não conhecesse o podrinho por trás daqueles dentões branqueados das fotos.

Existir e viver a vida dos outros por aí é uma arte e é o segredo de ser feliz. Eu sou o sociopata da minha própria vida. E ainda não posso fazer nada para amainar isso.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

3 comentários

  1. Seja bem vindo. A juventude está chegando ao fim. Não há mais graça em recordar pois você já começa a entrar em um estágio de ser recordado por outros. Acompanho seu blog desde o início do Ópio. O pior de tudo é que eu vivo uns dois anos adiante do que lhe acontece. Não estou na Europa, mas acho que talvez pela idade, ler você, desde os pensamentos insanos do Ópio era como me ver no espelho. Eu temia pelo dia em que seus posts se tornassem um reflexo da sua vida real, pois aí me daria conta de que não existe outro caminho. É muito ruim este período. Sinceramente, não sei se é um reflexo da era, das influências tecnológicas como você diz. Simplesmente, parece que uma hora todas as histórias perdem a graça. A futilidade fica ainda mais previsível. Enfim, o mundo fica banal. Veremos o que acontece nos próximos 10 anos…