A mulher patológica

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O telefone tocou e ele não atendeu. Tocou novamente. Sabia quem era, sabia o porquê daquela ligação. Na terceira vez, atendeu com uma voz fria. Ela queria vê-lo, queria conversar. Ele apenas respondia suas questões.

Ela estava carente. Carente e tarada — mais precisamente. E sua súplica quase o convencera.

Ceder uma visita à ela seria voltar-se contra seus princípios. Ceder seu corpo novamente para aquela mulher seria amargurar sua vida já amargurada.

Negou. Venceu-a com sua lábia descabida. Simulou um mal-estar, desconversou-a. Despediram-se.

Ela percebeu que ele não era mais tolo, usável e fútil. Ele percebeu que estava ficando forte. Estava ficando, não era ainda.

Se fosse forte não lamentaria, pensativo e impaciente. Sua vontade de possuí-la ainda o carcomia por dentro. Mas por hoje a batalha havia se encerrado.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.