A menina do Orkut

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Doralice acessa a internet para conhecer pessoas. Tem um computador mequetréfe, amarelado e impregnado de adesivos japoneses “metal-stickers”. Doralice — coitadinha — é feia pra chuchu. Até poderíamos dizer: “Oh, Dórinha tem alguns ângulos encantadores!” mas seria mentir em demasia.

A moçoila era bonita em 1992. Adorava zanzar pelas ruas do centro com uma bicicleta toda cheia de nove horas. Tinha até uma cesta no guidom, com umas flores roubadas na vizinhança. Praticamente una ragazza graziosa che guida la bicicletta, com direito a vestido que avoava e la mutandina, de supetão, visibile.

Acontece que esse jeitão espaventado por entre os carros não deu muito certo e um charreteiro atropelou a incauta zanzarina. A coisa até que foi engraçada em um primeiro momento, justamente porque ela se estatelou no chão de uma maneira jocosa. As flores do balaio do guidom caíram por cima e parecia que ela tinha batido as botas de verdade, envelopada para um féretro.

Devaneios à parte, Dórinha quebrou a bacia e ficou meio capenga de um lado. A queda também deslocou de leve o nervo óptico esquerdo, o que a deixou meio zarolha. Engordou, começou a fumar, largou a bicicleta, perdeu os 4 anos de namoro, ganhou olheiras, frieiras e chulé.

Mas ela tem um computador amarelado. Pois então.

E eis que ela descobriu a maravilha da virtualidade e cibrenética. Pra quê! Lá foi a dondoca passear no mundo do sentimento-cego. Entrou no Orkut. Cadastrou-se no almas-gêmeas. Levou dezesseis horas em frente ao computador: digitou, apagou, reescreveu, leu, releu. Criou uma auto-biografia erudita, sensual e intrigante. Invejável por assim dizer.

“Clique aqui para enviar a foto do álbum”

Ah não! Dórinha, a coisinha feia, não tirava uma foto decente há tempos. Só 3×4 com olheiras e cara de peixe morto. E olha lá.

Bom, como nada é assim tão imutável que não possa se descaracterizar, Dó não teve dúvidas: correu para os arquivos analógicos de fotos impressas, seu gavetão de tranqueiras, convicta.

Achou a foto perfeita:

doralice.jpg

Abramos parentese. Quer foto mais especial e bonita que a que Doralice achou? Pois bem, ela chegou em um ponto muito interessante da vida virtual: a foto pessoal.

Todo mundo tem uma foto para a internet. O Orkut é o pai de todas as maldades quando se fala em “A Foto”. Milhares de perfis com belas estampas na esquerda. Ângulos reais, não tenha dúvida. Mas momentos tão sutis e especiais (as vezes artificiais ao extremo) que talvez jamais se repitam. Fotos indecentes no ponto de vista moral. Quem sabe difamatórias, não seriam? Fechemos parentese.

Dó arrancou a foto do porta-retratos. Atrás, escrito em azul: “Para meu momozinho, da sua dodózinha / Arraial’91”.

Ah, sim… Momozinho era o amor da Dodózinha. Ah, outro parentese. O maledetto Momo largou a Dodó por descaso. Descaso dela, fique claro. A dodózinha, delicadinha virou um dodôzão. Ele lutou contra o enfeiamento progressivo, mas ela já tinha perdido a batalha antes de começar. Fecho parêntese.

Enxugou o fio de lágrima. Foi para o computador, escaneou a foto, salvou e clicou acolá para enviar. Quinze minutos depois, a frase que mudaria sua vida para sempre: “Oi gata, tem MSN?”

Doralice conheceu muitos homens. Especializou-se em primeiros-encontros. “Aliás, quer coisa mais meiga e linda do que um homem perfumado com uma única rosa na mão?” Ela diz, sorridente.

Nunca alimentou a esperança de um segundo encontro.

E nem quer.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

0 comentários

  1. Pois é… o orkut é uma máquina de fantasias para quem foge do mundo real, sem deixar de sonhar com ele. Seja o sonho bom ou mal.

    Essa foto é sua? Criou a história a partir da foto?

    Bela história!

    😉