A impessoalidade literal

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Escrever é perder todas as lembranças e destruí-las em formatos de letras agressivas e ásperas. A literatura — em qualquer uma das suas formas mais vorazes: poesia, elegia, ou a prosa fascínora  — é a maneira mais fácil e deliciosa de ignorar a vida. Qualquer outra expressão visual, por mais plástica e abstrata que seja, consegue exprimir sentidos perfeitamentame tangíveis e perfeitos.

A literatura é torpe e baixa. Descreve tudo com uma simplicidade e perfeição incrível. E mesmo assim, nunca a velha casa das paredes descascadas de um mofo adocicado será a mesma.

A sua casa não é a minha.

A minha é na beira de uma praia de Montouk, caída e sem caibros, com neve perto do beiral da varanda. A sua deve ser Bauhaus, apopética, vai saber.

Um drama nunca foi o que almejou ser; no máximo um romance dado sem narrativa alguma. Textos assíncronos, sem realidade, inexistentes em sua própria subjetividade.

A literatura é um monstro aniquilador de sonhos.

Sem dó.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

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