A fotografia é arte?

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Fotografar é colocar
na mesma linha de mira
a cabeça, o olho e o coração
— Henri Cartier-Bresson

Eu tento acompanhar a evolução digital fotográfica desde 1996, quando conheci a primeira câmera digital da Kodak, uma DC40 de 250kilopixels. Algo como ¼ megapixels, o que significa uma imagem de 756×504. Um equipamento de $999 que perdia feio para um scanner qualquer de R$200.

Mas era interessante saber que o filme estaria morto em pouco mais de 4 anos.

A questão é que a fotografia nunca foi tão explorada como no começo deste novo século. A digital conseguiu forçar qualquer forma de elitização de processos lentos para o imediatismo do cabo lógico. E arrebanhou milhões de novos clicadores inveterados. Basicamente passou de um ritual mecânico, químico, transformático e lento para um simples processo físico-digital instantâneo.

A evolução pegou pesado nas bolas dos fotógrafos clássicos e isso foi um tapa de luva de pelica no brio póstumo de grandes clicadores. Conheci muita gente que tinha na fotografia um dogma religioso e performático muito sério. E que acabou sucumbindo ao marasmo da cultura diluída em novos entusiastas virtuais massivos.

E a fotografia era uma arte?

Era.

Quando todo o processo de produção, raciocínio e montagem da fotografia abrangia muito mais técnica e controle do resultado final de uma única imagem, poderíamos dizer que era arte. Mesmo porque todo o resultado só poderia ser visto um ou dois dias depois.

Hoje não sei se é.

Aprende-se a fotografar com o método mais burro e penoso que existe: tentativa e erro. Abertura focal, diafragmas, profundidade de campo, ‘bokeh’, dof e granulação são coisas paranormais em um equipamento na mão de quem não tem idéia de como essa mecânica toda funciona. É uma burrice preguiçosa, por assim dizer. Existem milhares de livros, tutoriais e videos explicando tudo sobre o todo.

Mecânica e fisica, meu amigo. Por que você acha que existe aquele mito dos 150 mil cliques que matam uma reflex digital?

Então em uma saída de safári fotográfico, lá vão os ‘autodidatas patetas’ com suas digitais poderosas clicando tudo e todos, sem muito pensar. O estalar do espelho em conjunto do burst e da pluralidade de máquinas gera um som hipnótico. Das 983 imagens clicadas, 32 ficaram excelentes, 8 sensacionais e 2 concentuais e perfeitas.

Valeu?

Sinceramente eu não sei. Regra dos terços, enquadramento e composição, pensamento e imaginação acabam sendo engolidos pelo imediatismo da vomitação visual. Fica uma sensação de que tudo poderia ter sido mais bonito e bem feito.

Vamos aos fatos:

A imagem abaixo é uma composição clássica de Salvador Dali com o fotógrafo Philippe Halsman. Tem até nome: Dali Atomicus. Apesar de parecer uma montagem das brabas, a fotografia teve um ensaio gigantesco, todo preparado com assistentes e precisão. Ah, jogaram os gatos, a água, os móveis, o Dali pulou e tudo mais.

Arte ou artesanato?

Existe uma briga grande entre artistas que é a dicotomia entre a arte e o artesanato. A mesma coisa é na fotografia. Uma imagem pode ser meramente clicada, reproduzida e ampliada quantas vezes quiser. O mesmo vale para uma produção em série de estatuetas do Mestre Vitalino. Seria arte? Ou simples artesanato de reprodução?

Esta outra imagem é um lightblur. Ali em cima da Câmara (bacia pra cima) tem um ponto amarelo maior, a lua cheia. Eu deixei essa foto muito exposta e na hora de tirar a câmera do tripé o obturador ainda estava aberto, dando esse efeito de riscos e pontilhados “sujando” a fotografia. Foi um acidente e o resultado ficou legal. O acaso é arte?

A fotografia só é arte porque tem a cultura abstrata por trás. Uma espécie de legado, meio que forçado. E só é artesanato porque o cotidiano suplica por novas idéias visuais fiéis a cada instante. Fotojornalismo, estúdio, ensaios, pornografia e conceitualização pessoal fazem parte da massa visual indigesta.

Elevar-se da massa clicadora é a chave para a arte.  O resto é conversa para flickr.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

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