A filosofia barata é um doce

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A filosofia barata é deliciosa. Encaixa perfeitamente. Tende ao acerto igual a metodologia do bem-estar coringa de um horóscopo. Ajuda, esquenta, anima, conforta. É volúvel como um mantra repetido por centenas de vezes e que não fixa. Fácil de acreditar, fácil de esquecer.

O problema é que ela não ajuda. Você não muda. O gelzinho gosmento em que você flana, feito de um ágar vencido, não muda de densidade. Esse é o preço do preço barato da filosofia rala: não te faz raciocinar.

Se você pensa que pode ou se pensa que não pode, de qualquer forma você está certo. — Henry Ford

Muita gente jamais vai conseguir experimentar o sucesso absoluto.

Por que?

Porque mudar dói. trocar a inércia da certeza por uma turbulenta dinâmica é estressante. Trocar o que é bom por algo que possa ser melhor é um sacrifício. É mudar a perspectiva, ampliar o horizonte, sentir o medo de entrar em um nevoeiro espesso e desconhecido. Viver uma vida extraordinária é abandonar a atual vida normal. É neste momento que o freio da razão te priva e o sentimento de impotência toma conta de tudo. E não é impotência, no final das contas.

A questão mais importante que alguém pode perguntar é: Qual mito eu estou vivendo? — Carl Jung

Viver é fácil, evoluir dói; deixar as crenças em um barranco, abandonadas é algo horrível. O apego que se perde por algo que se creu intensamente. Abandonar uma crença é deixar um buraco oco dentro da sua consciência.


A filosofia barata tem a ver com o mundo ao meu redor. Com os comentários pretensiosos, com a sátira ferrenha quando o momento pede seriedade. Com a pesquisa equivocada, com o martirismo fajuto, com a tradução mal feita, com o texto mal interpretado, com a crença em tudo que está postado. O crível, acreditado pela boa fé de que aquele site pulguento estava falando a verdade, sim. O sangue no olho que dilata a pupila e pulsa a pálpebra de modo incontrolável.


Estou cercado por mantras loucos. Por gente que procura a complexidade quando a resposta é apenas a simplicidade da clareza. Por que você não cobrou por isso? Por que você não ganha dinheiro com isso? Por que você não larga essa vida? Gente que enxerga demais. Que reclama demais. Que se preocupa demais. Muita coisa não tem razão, muita coisa não precisa de razão.

O mundo é um barril de pólvora.

Aliás.

O mundo é um barril de pólvora e todo dia um esperto acorda com a consciência de que vai passar a perna em um desapercebido.

A filosofia barata é um vírus cheio de tentáculos grudentos ávida por um compartilhamento de conteúdo-podre na rede social favorita.

É aquele conforto quentinho quando todo mundo balança a cabeça em um movimento longo e lento de afirmação resignada quando o velho sibarita reclama da fila interminável do banco em um dia chuvoso de verão. Ninguém quer saber, ninguém vai apoiar o levante. Mas balançam a cabeça. Balançam, e isso dá um ânimo sem peso algum para ele continuar reclamando. E todo mundo continuar balançando a cabeça em um moto contínuo de vida sem alma.


A inversão de valores faz parte dessa baratisse. A falta de valores também. O aplauso para o carrasco, o choramingo por mais um adultério, a agressividade por mensagem instantânea e a briga nas caixas de comentários estão aí para estourar sua veia miocárdica.


Existe uma coisa que me arrependo muito. Não ter estudado o quanto deveria. E não ter estudado um monte de coisas a mais. Queria saber tocar violão. Mas queria saber tocar violão desde os 11 anos de idade e não aprender agora, quando o cérebro já está a perder a gordura dos axiomas e fechando as portinhas do cloud storage. Ou aprender filosofia ou história ou geografia. Física e a parte elétrica para criar uns componentes maneiros em arduíno e entender uns chaveamentos elétricos que agora são sofríveis para entender.

Um amiguinho finlandês me disse que existe uma palavra em inglês para pessoas que começam a estudar muito tempo depois que deveria: Opsimath. Acho que é diferente de andragogia e eu preciso estudar sobre para entender as diferenças.

Quisera eu que o ET Bilu existisse na minha adolescência e me desse a fita naquela época.

E eu falo sério sobre isso.

Busquem conhecimento. — ET Bilu

Não sobre o ET, mas sobre conhecimento.

Sou profundamente triste por não conseguir ir além do normal.

Ou não ter umas ideias maneiras sem acento no ‘i’.

Pode ser falta de criatividade.

Mas com certeza falta conhecimento.

E quando falta conhecimento, a filosofia barata aparece. Rodeia em seu próprio eixo umas 3 vezes e se aninha igual a um cachorro sarnento.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>